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18 de ago. de 2011

Artigo: CONCEITUANDO A ANTROPOLOGIA. Por: Ronaldo A Lidório

Encontrei esse artigo na revista ANTROPOS – Revista de Antropologia – e achei muito interessante, então resolvi compartilhar com vocês. Abaixo segue a refererência.
 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDFagKVZQBnMrq5nQGFVzt1EQoqZ-UECdpi-b8qrtX48AC0ivAjtcw36X8IXjANqWQQxPtNNbnRA5tAGzffnUSlpQebgqt3sxrEfqsBiXaW8oT1x-CfsWnRuoJtP80oYk42zVWI3d1v-q-/s1600/artigos.jpg
O objetivo deste artigo é introduzirmos  antropologia como ciência social, a partir dos seus próprios conceitos, assim como os da cultura e do homem, constituindo  -  estes três (a antropologia, a cultura e o homem)  - os focos principais. 

O que temos praticamente aqui são três níveis de estudo onde  antropologia se vê como um círculo de conhecimento acadêmico cuja abrangência seria mais vasta e englobaria a conceituação de cultura e sucessivamente do homem, pois este é a célula menor dentro da composição de todos os demais segmentos culturais. Acreditamos portanto que, de maneira bem prática, se conceituarmos Antropologia, Cultura e Homem teremos uma boa base acadêmica sobre tal assunto como ciência. 

Teorias antropológicas 

 No século XIX surge o evolucionismo unilinear, que aplica a teoria da  evolução na culturalidade e gera o pressuposto que o homem passaria por estágios de evolução cultural: da selvageria à barbárie, da barbárie à civilização e da civilização ao estado de perfeição relativa. Tais estudos se basearam na observação de culturas ultramarinas, a partir do gabinete e não do campo, de forma distante e pouco aprofundada. São estudos etnocêntricos e comparativos, relegando às etnias minoritárias diferentes graus de primitivismo tendo a cultura européia como ponto de referência do processo civilizatório. É, dessa forma, uma teoria idealista, tendo como ideal o europeu, sua sociedade e tecnologia. Esta teoria criou a plataforma filosófica para o domínio europeu no novo mundo e foi desenvolvida dentro do cenário dos escritos e pensamento de Spencer (princípios da biologia, 1864) e Tylor (A cultura primitiva, 1871) dentre outros. A publicação de Regras do Método Sociológico, de 1895, propõe que os fatos sociais eram mais complexos do que se imaginaria a princípio. Com Durkheim os fenômenos sociais começam a ser definidos como objetos de investigação socio-antropológica. Juntamente com Mauss, Durkheim1 (no final do século XIX) se debruça nas representações primitivas, estudo que culminará na obra Algumas formas primitivas de classificação, publicada em 1901. Com isto se vê inaugurada a chamada linhagem francesa no estudo da antropologia.  Franz Boas , nos Estados Unidos da América, desenvolve a idéia de que cada cultura tem uma história particular e, portanto a difusão de traços culturais deveria acontecer com freqüência e abrangência. Nasce o Relativismo cultural tendo início a investigação de campo, saindo dos gabinetes e cenários puramente teóricos. Boas defende que cada cultura deve ser definida pela sua própria história particular, portanto torna-se necessário estudá-las separadamente com o objetivo de construir sua história. Surgia o Culturalismo, também conhecido como  Particularismo Histórico.  Deste movimento nasceria posteriormente a escola antropológica da Cultura e Personalidade. O particularismo histórico questionou o evolucionismo unilinear propondo que cada cultura possui sua historicidade que demanda respeito. São atacadas as comparações idealistas culturais. Advoga também o que seria o protótipo da observação participativa na  qual o pesquisador interage com o povo alvo. Desenvolveu o método indutivo (do particular para o geral) contrapondo a antropologia clássica da época, generalista.  A Antropologia Estrutural nasce na década de 1940. Lévi-Strauss é o seu grande teórico e defende que existem regras estruturantes das culturas na mente humana. Desta forma estas regras constroem pares de oposição para organizar o sentindo. Ele recorre a duas fontes principais: a corrente psicológica criada por Wundt e o trabalho realizado no campo da lingüística, por Saussure, denominado Estruturalismo. Foi também influenciado por Durkheim, Jakobson com a teoria lingüística, Kant com o idealismo e Mauss. O Estruturalismo dá um grande impulso a lingüística de forma geral ao defender que é necessário compreender o padrão mental, de pensamento e comunicação de um povo, a fim de compreender a sua cultura. Nesta época métodos fonológicos passam a ser aplicados para estudos culturais. A finalidade maior é encontrar o que foi chamado de pensamento coletivo pois este aglutinaria impressões e valores de um povo. Valoriza-se o registro (e interpretação) de lendas e mitos. O Funcionalismo vem se contrapor às teorias da época e propõe a compreensão (e estudo) da cultura a partir de um ciclo de valores que estão interligados. Ou seja, todos os aspectos que definem uma sociedade (língua, atividades de subsistência etc) fazem parte de um todo que pode ser entendido como cultura. Desta forma vemos o nascimento da distinção entre etnografia e etnologia, pressupondo a necessidade de não apenas dissertar as atividades humanas em determinado segmento social mas também compreender a identidade do grupo. Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard desenvolveram esta teoria propondo uma nova ramificação que é o Funcionalismo estrutural. Defenderam que a estrutura social é o ponto central em uma sociedade e todas as atividades e fatos sociais (valores, religião, organização familiar etc) são desenvolvidos com a finalidade de manter a estrutura social estável. O desequilíbrio desta  estrutura social faz com que a sociedade desenvolva outros mecanismos, valores ou atividades que venham a reequilibrá-lo.  O Neo-evolucionismo define que a evolução cultural se dará, basicamente, através da luta do homem contra a natureza, e o domínio deste sobre aquele em relação à subsistência, segurança e bem estar. Steward defendia, porém, que as mudanças ambientais foram as principais causadoras das mudanças culturais e prevê que as grandes possíveis mudanças ambientais puderam resultar em mudanças gerais na humanidade. Assim defende ser  necessário, ao homem, permanecer com seu instinto de adaptação ao ambiente, o que proverá segurança e sobrevivência.  Na segunda metade do século 20 Clifford Geertz, após Lévi-Strauss, provavelmente foi o antropólogo cujas idéias mais causaram impacto na sociedade. É considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea, a chamada Antropologia hermenêutica ou interpretativa. As teorias simbólicas e hermenêuticas apresentam duas classes antropológicas. A primeira, simbólica, defende a identificação do significado cultural a partir da observação e analise de ritos, mitos, cosmogonias e assim por diante. A segunda, hermenêutica, defende a interpretação destes fatos sociais. A pergunta, para estes, é sempre, "qual a idéia por trás do fato social?" 
 
Conceituando Antropologia 

Nosso primeiro passo rumo ao triplo enfoque citado é conceituarmos, mesmo que de forma breve, a antropologia. Esta ciência foi formada a partir de diversas origens, estudos e fundamentos, documentados numa história de evoluções de idéias que levaram aos aspectos conclusivos de hoje. Laraia nos fala sobre a diversidade de pensadores que proveram os elementos necessários à ciência antropológica como Confúcio ao afirmar que “a natureza dos homens é a mesma, são seus hábitos que os mantém separados”. A partir desta idéia fundamental da antropologia muitos levantaram uma pergunta iniciadora no assunto: porque homens semelhantes em contextos semelhantes geram culturas tão distintas?  Franz Boas descreve as narrativas de Heródoto (484-424 a.C) aos gregos, a respeito do que havia visto em diferentes terras citando, em uma de suas observações, que os Lícios possuíam “um costume único pelo qual diferem de todas as outras nações. Tomam o nome da mãe e não do pai.” Este tipo de constatação veio a formar a categoria hoje conhecida como estrutura de parentesco matrilinear.  José de Anchieta (1534-1597) observou a estrutura de parentesco patrilinear entre os Tupinambás escrevendo que “porque têm para si que o parentesco verdadeiro vem pela parte dos pais, que são agentes; e que as mães não são mais que uns sacos, em respeito aos dos pais, em que se criam as crianças, e por esta causa os filhos dos pais, posto que sejam havidos de escravas e contrárias cativas, são sempre livres e tão estimados como os outros”. Geertz discorre sobre diversos outros pesquisadores que contribuíram com esboços daquilo que formaria o atual pensamento antropológico como Khaldun, no século XIV, que elaborou a tese de que os habitantes de terras quentes são mais passionais que os de climas frios . Ou ainda Locke que pesquisou o conceito das idéias a partir das distinções geográficas. No século XVIII Rousseau, Schiller e Herder tentaram construir um esboço da história da humanidade a partir dos relatos de diversas viagens, de Marco Polo a Cook.  Todos estes exemplos demonstram métodos antropológicos de observação e interpretação das raízes e valores culturais em diferentes contextos humanos. Portanto, Antropologia poderia  ser introdutoriamente conceituada como “o resultado da aglutinação histórica de impressões, fatos e idéias sobre a identidade do homem disperso em seus diferentes ajuntamentos sociais”. A ideologia antropológica, entretanto, sofreria forte impacto acadêmico do evolucionismo de Darwin (denominado na época de método comparativo), representado principalmente por Tylor. A principal oposição é encontrada exatamente nas claras idéias de Franz Boas (1858-1949). Este método comparativo defendia que o homem é o resultado do seu ambiente. Para melhor entendermos tomemos como exemplo o povo Ewe no centro de Gana, África ocidental. Sua língua utilizou quatro vocábulos diferentes para designar o conceito de rio, porque habitam numa área fluvial que depende de uma compreensão melhor da evolução desta idéia, enquanto os Konkombas, que não transitam nos rios mas partilham o mesmo território, utilizam apenas um vocábulo para conceituar rio. Assim, segundo esta teoria, o ambiente define a cultura e define o homem levando-o a desenvolver língua, hábitos e formas de agrupamento a partir do contexto.  Boas interfere e nos propõe que a cultura humana não é apenas o resultado do ambiente mas sim o resultado das idéias. Revolucionando a Antropologia da época, Boas fez escola ao mesmo tempo em que chamou a atenção para uma dualidade que tem como primeiro elemento o reconhecimento do que o ambiente pode produzir no indivíduo. Desta forma o ambiente seria de fato determinante em alguns aspectos da formação cultural do indivíduo. Tomemos, como exemplo, um bebê recém nascido, com três meses de idade, tendo nascido em uma família Tukano do Alto Rio Negro. Por algum motivo esta criança é levada para ser criada por uma família Italiana de Milão. Aos 15 anos de idade este adolescente, senão pelo aspecto físico, será um puro Italiano lingüística e culturalmente. Enfrentaria todas as limitações como qualquer Italiano se necessário fosse se aculturar no universo Tukano, aprender sua língua, entender sua cosmovisão, adaptar-se ao clima, organização social e tudo o mais. A determinação do ambiente de fato é relevante e prioritária na formação direta do indivíduo em termos de identidade étnica e cultural. Mas Boas acrescenta um segundo elemento, para compor sua dualidade. Apesar do determinismo geográfico ter seu fundamento bem embasado, há elementos que constroem a cultura em um determinado grupo que independe de sua regionalidade. A comprovação mais conclusiva, observada por Boas, foi o desenvolvimento dos Esquimós (Inuit) em uma mesma região dividida politicamente entre o Canadá e os Estados Unidos das Américas. As escolhas culturais do agrupamento foram extremamente distintas gerando grupos também distintos apesar de compartilharem a mesma história, região e ancestralidade. Falam hoje dialetos distintos e possuem costumes paradoxais mesmo vivendo tão próximos. Portanto a cultura é um elemento muito mais dinâmico do que se poderia esperar, e desta forma mais complexo ao ser analisado de forma linear. A Antropologia, inicialmente, era tratada apenas como uma área de estudo dentro da História e da Filosofia. Com o descobrimento das complexidades culturais a humanidade viu-se diante  da gritante necessidade de uma área específica e subdividida a ponto de cobrir algumas fontes de perguntas sociais. Surgiu o Estudo do homem.  Um dos fatos que despertou atenções ao redor do mundo no século XVI foi a inconcebível possibilidade de que fatos análogos possam estar desassociados em sua origem. Com as viagens e descobertas de novos mundos e povos os relatos rapidamente chegaram à Europa conduzindo uma série de questionamentos a respeito de respostas que antes eram tidas como certas. Percebeu-se, por exemplo, que o garfo foi usado primeiramente em Fiji e tempos depois inventado na Europa sem que houvesse entre estes lugares qualquer transmissão de conhecimento. Os tesouros artísticos que chegavam do chamado novo mundo ocidental possuíam tremenda semelhança com os relatados por Marco Polo no mundo oriental. O golpe final foi dado através dos relatos de grupos  isolados por gerações na Polinésia os quais, desenvolveram artifícios de bronze e arpões de pesca quase idênticos aos utilizados na Roma de dois milênios atrás sem que houvesse possibilidade de transmissão histórica de conhecimento. É claro, portanto, a conclusão de que necessidades comuns geram invenções e respostas análogas. Tornou-se necessária a existência de uma área específica para o estudo do homem, suas interações sociais, herança histórica e identidade comunitária. Surgia a Antropologia que mais tarde viria a se desmembrar em Aplicada, Cultural, Etnologia, Fenomenologia e diversas outras estruturas de pesquisa e conhecimento do desenvolvimento humano em seu contexto social.   

Conceituando Cultura 

  Vivíamos, no século XVIII, a era do determinismo geográfico onde toda diferença cultural e lingüística era considerada a partir das diferenças regionais. A atenção na incipiente etnologia da época passou a se concentrar nos ambientes onde “clima, condições de subsistência, alimento, acesso à água potável,  qualidade do ar e distanciamento de outros ajuntamentos humanos determinam em larga escala a identidade de uma pessoa e seu grupo”. Era uma visão parcial da identidade humana que viria a receber novos questionamentos.  Em face desta crescente influência cultural analítica, no fim do século XVIII e início do XIX era ampla a utilização do termo kultur ao se referir ao bojo de valores espirituais em um povo ou nação. Paralelamente civilization era um termo francês que transmitia a idéia do desenvolvimento estrutural de uma nação. Edward Tylor (1832-1917) sintetizou as duas expressões na nomenclatura inglesa culture a partir da qual várias escolas foram fundadas e pensamentos se distinguiram no estudo e pesquisa das distinções e semelhançasdo homem em seus diversos segmentos. Inicialmente se conceituou cultura como “todo comportamento aprendido, assimilado, avaliado e sujeito a progressos; tudo aquilo que independe de uma transmissão genética”.  Jacques Turgot, Jean-Jacques Rousseau e John Locke, nesta  trilha, defenderam a transmissão do conhecimento como fator responsável pela cultura e desembocaram na idéia  da educação como agente responsável pela formação do homem em sua totalidade afirmando até mesmo que os grandes macacos, através de uma educação sistemática e processual, poderiam se desenvolver em humanos.  A partir de 1920 antropólogos como Boas, Wissler e Kroeber passaram a desenvolver um estudo antropológico a partir da análise das idéias e não dos ambientes. Vieram a questionar o determinismo geográfico a partir da observação de que grupos historicamente habitantes do mesmo território se desenvolviam culturalmente de forma distinta.  Silverwood-Cope traça uma linha analítica dos povos do Alto Rio Negro onde as diferenças culturais mais gritantes eram encontradas entre as etnias com grave aproximação geográfica como os Pira-Tapuya, Tariano e Hupdah os quais, compartilhando o mesmo ambiente, diferiam entre si em categorias básicas como pescadores, plantadores e coletores, sucessivamente. Konkombas e Bassaris, no nordeste de Gana, África, possuem 1.200 anos de convivência e partilha ambiental, mas observamos os principais traços culturais de parentesco divergirem rigorosamente. Os primeiros são endogâmicos (casam-se somente entre si) enquanto o segundo grupo pratica a exogamia (casam-se exclusivamente com pessoas de fora de seu circuito cultural) como valor chave para sua interação sociocultural.  A partir de uma observação mais exata a idéia da existência do homem e seu agrupamento como uma entidade puramente receptiva e susceptível ao ambiente foi refutada. Passou-se a mergulhar nas idéias, possíveis geradoras de valores e costumes.  De forma geral, portanto, poderíamos citar Paul Hiebert e conceituar cultura como “os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valores e seus padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados por um grupo de pessoas que organiza e regulamenta o que pensa, sente e faz”.  

Conceituando o Homem 

A sociologia não vê o homem sozinho como homem, por definir este como um ser estritamente social. A psicologia vê o homem como um ser autoconsciente enquanto a filosofia o define como um ser moral e racional como defendia Hegel. Para a teologia, o fato de ser espiritual o distingue de toda a criação.  Até aqui temos visto uma antropologia mais culturalista, mais estruturalista, na consideração de que uma cultura seria um agrupamento ou um segmento social que se desenvolve a partir das idéias e influencia o homem. Não seria, portanto, o meio geográfico que determinaria a cultura, porém a dinâmica da cultura influenciaria o ser humano que estaria dentro dela, sendo o homem a célula menor.  Perante tal pressuposto surgiu, porém, um problema axiomático a ser debatido na antropologia. Estudiosos começaram a perceber que, perante culturas profundamente definidas em alguns aspectos (modo de vida, valores, prioridades, etc) não raramente surgiam  indivíduos que, drástica e surpreendentemente, geravam mudanças profundas na base dos conceitos e vida. Ou seja, passou-se a perceber que o homem é um agente transformador da cultura. Assim, o segredo para entendermos a dinâmica cultural seria entendermos o homem, o indivíduo, este ser destituído de muito valor na visão estruturalista.  Pensando sobre o agente humano e suas múltiplas interações, Kroeber ajuda-nos a distinguir o orgânico do cultural. Segundo ele o homem está inserido na mecânica da natureza de forma igual pois, organicamente, possui necessidades igualitárias a serem satisfeitas tais como o sono, alimentação, proteção, sexualidade e etc. Porém, a forma de suprir estas necessidades difere, certamente, de agrupamento para agrupamento, de segmento social para segmento social. E isto seria cultura. Se um indígena, membro de uma cultura tolerante ao infanticídio, ou mesmo fomentadora do mesmo, um dia decidir não mais participar, e até mesmo se opor a tal prática, movido por pura volição e escolha, ua história bem como de seu grupo poderá ser perpetuamente alterada desde então.  Portanto, o homem, apesar de ser a célula menor no conceito antropológico geral e cultural, também é o agente transformador. Desta forma pode-se diferir o homem dos demais agentes da natureza, em termos culturais por “sua capacidade de transmitir sua história à geração vindoura, avaliá-la de acordo com seus atuais princípios e desejos, e recriá-la à luz de suas expectativas”.  Franz Boas, estudando as diferenças culturais entre os Esquimós (Inuit) no Canadá (1883) percebeu que as idéias de nobreza, miséria, dignidade, pecado e relacionamento, “residem na construção do coração, em que eu encontro, ou não, tanto aqui quanto entre nós”. Portanto, passou a conceituar o homem como “um agente transmissor de idéias, fonte inerente de conceitos herdados pela humanidade que se distingue em suas aplicações na vida e grupo”.  Desta forma a fonte da diversidade cultural passou a ser o homem e seu pensamento, não o ambiente e imposições geográficas. Entretanto falta aqui o estudo e percepção dos elementos geradores de idéias no indivíduo. O que veio mais tarde a ser tratado na fenomenologia religiosa.  Digno de nota seria a discordância entre Tylor e Kroeber em razão da posição do homem entre os outros seres vivos. Enquanto Tylor distinguia o homem a partir da cultura (o único possuidor de cultura e transmissão cultural) Kroeber distinguia o homem dos demais seres vivos apenas pelo poder de comunicação oral mais precisa e capacidade de gerar instrumentos que lhe pudessem ser úteis ao desenvolvimento. Apesar da tentativa de Kroeber em colocar o homem dentro da ordem da natureza, não o distinguindo dos demais seres vivos, não nos fornece munição para entendermos a sua incrível diversidade. Recorremos, portanto, às palavras de Laraia quando diz que  a grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas, dominou os ares; sem guelras ou membranas próprias, conquistou os mares. Tudo isto porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura.  Segundo Geertz, as antigas abordagens definidoras da natureza humana, tanto feitas pelo Iluminismo quanto pela antropologia clássica, são basicamente tipológicas, e  tornavam secundárias as diferenças entre indivíduos e grupos. Agora, através de uma visão cultural vemos que se tornar humano é “tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais... (que) não são gerais, mas específicos”. Portanto poderíamos conceituar homem, para nosso estudo antropológico, como o ser em cultura, que se define a partir da sua história, suas idéias e envolvimento social. Em sua consciência, em sua moralidade e racionalidade, assim como em sua espiritualidade o homem pode aventurar-se num caminhar construtivo em sua própria essência humana através de sua vocação cultural.



Fonte: 
LIDÓRIO, Ronado. CONCEITUANDO A ANTROPOLOGIA. Revista Antropos – Volume 3, Ano 2, Dezembro de 2009 ISSN 1982-1050. Acesso em: 18 de agosto de 2011.
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31 de jan. de 2011

Artigo: acumulação do capital e o desemprego


Abaixo você encontra  uma análise sobre a acumulação do capital e o desemprego, trabalhado na cadeira de Economia Política (1° Período). Como eu era muito "fera" quando elaborei esse artigo, você pode encontrar algumas garfes. Então use somente como apoio e não copie por favor.

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"Uma análise sobre a acumulação do capital e o desemprego"

 

RESUMO

Este artigo problematiza o crescente índice de desemprego em escala global, em detrimento da acumulação de capital de uma minoria que através do poder econômico explora o proletariado. Tem-se como objetivo atender a necessidade acadêmica de esclarecer a visão contemporânea  e m relação a esse contexto e indicar soluções momentâneas para o quadro do desemprego crescente na atualidade.
Palavras-chave: Acumulação de capital. Desemprego. Visão contemporânea.

ABSTRACT

This article discusses the growing rate of unemployment on a global scale, at the expense of capital accumulation of a minority that operates through its economic power to the proletariat. It has been targeted to meet the academic need to clarify the contemporary view in relation to this context and indicate solutions to the momentary context of growing unemployment in the news.

KeyWords: Accumulation of capital. Unemployment. Contemporary view.




INTRODUÇÃO

ACUMULAÇÃO DE CAPITAL

A acumulação do capital é um processo histórico que diz respeito a formação da produção capitalista, que retirou os meios de produção das mãos dos produtores e converteu-os gradualmente em trabalhadores assalariados. Este fenômeno foi acompanhado da ruína de grande parte dos produtores diretos, sobretudo agricultores, e da sua transformação em indivíduos despojados dos seus bens, juridicamente livres, mas carentes de meios de subsistência e, consequentemente, forçados a vender a sua força de trabalho. Em outras palavras,  essa acumulação criou as condições necessárias ao nascimento do capitalismo, através da expropriação das terras e dos meios de produção dos camponeses e dos artesãos, transformados num proletariado que dispõe apenas da sua força de trabalho, e através da expansão de uma classe burguesa que concentra nas suas mãos a propriedade dos meios de produção.  Em resumo, a acumulação de capital resulta da transformação de grande parte da mais-valia em capital e do seu emprego para voltar a produzir, em vez de o capitalista o aplicar apenas no seu consumo individual. Na realidade, a mais-valia destinada à produção decompõe-se em meios de produção e em capital variável. É um mecanismo pelo qual o capital aumenta, ou seja, ultrapassa o nível da reprodução simples, ou da sua amortização, e assume a característica duma reprodução alargada. Os fatores que contribuem para aumentar a mais-valia incrementam a acumulação do capital A tendência fundamental deste processo tem como consequência um desenvolvimento das forças produtivas, uma concentração do capital entre um número de proprietários cada vez mais restrito e uma alteração da composição orgânica do capital.
A nível estatal, os instrumentos de política governamental desempenharam um papel importante na formação da acumulação de capital, designadamente através de meios de coação direta. Tiveram grande influência, na reunião de grandes capitais na mão de um número reduzido de indivíduos, os empréstimos estatais, o sistema tributário, a política protecionista e as leis estatais que limitavam os salários dos operários e estabeleciam prolongadas jornadas de trabalho. Entre as influências poderosas que promoviam a acumulação burguesa estavam o crescimento das instituições bancárias. A introdução da máquina revelou-se de uma importância decisiva como fonte de acumulação acelerada de capital por causa dos extraordinários lucros que ajudou a produzir. Este efeito atraiu, para as áreas de produção mais favorecidas, uma grande parte do capital adicional estimulado pelos novos investimentos. As crescentes necessidades financeiras do Estado conduziram à formação da dívida pública que se tornou numa das mais poderosas alavancas da acumulação de capital. A dívida do Estado impulsionou as sociedades por ações, o comércio com títulos negociáveis, a agiotagem ou o jogo da Bolsa. Com as dívidas do Estado surgiu um sistema de crédito internacional que frequentemente esconde uma das fontes da acumulação original. Os lucros fáceis, auferidos com o comércio exterior, o tráfico de escravos e a expansão das comunicações terrestres e marítimas, originaram, numa fase inicial, uma relativa pouca atenção ao crescimento da indústria. O investimento em empreendimentos industriais ocorre numa fase posterior com a expansão dos mercados coloniais. A popularidade crescente das sociedades por ações demonstrava a disponibilidade de fundos para investimento e, bem assim, a vontade de investir nessa forma de acumulação de riqueza.
Hoje, o método de poupança de renda tem sido encarado como uma forma de acumulação, entre outros, tais como: alugueis urbanos aumentados; inflação de lucros devido a mudanças monetárias; abertura de alguns canais comerciais; aquisição de um tipo determinado de propriedade quando se torna excepcionalmente barata e realizá-la mais tarde quando o valor do mercado estiver mais alto.
O DESEMPREGO
Desde o início dos anos 90, a economia brasileira começou a sentir os primeiros impactos da reestruturação produtiva e da gestão neoliberal, que gera o desemprego, a precarização e as acentuadas perdas salariais e de benefícios vitimando milhões de trabalhadores. A atual realidade do mundo moderno sugere mudanças rápidas na sociedade, no que diz respeito ao mercado de trabalho, é fato também que a sociedade não está acompanha o ritmo dessas mudanças, profissões estão desaparecendo e outras estão surgindo, a concentração de renda aumenta e a economia está se globalizando, nesse contexto cada vez mais as empresas estão investindo em características antes vistas como sem importância, a criatividade está sendo o diferencial, pré-requisito para o trabalhador moderno. Diante desse quadro o Brasil precisa de uma melhoria significativa no seu sistema educacional, preparando as novas gerações para a versatilidade do mundo moderno, bem como as políticas contra o desemprego precisam apresentar soluções adequadas à realidade de uma economia que não pode ser mais dividida simplesmente em formal e informal. Uma consequência do despreparo das universidades em produzir profissionais capacitados para o mercado são os novos cursos superiores com períodos menores ou mesmo cursos superiores feitos em finais de semana que apenas oferecem um diploma universitário. Se por um lado faltam empregos para a maioria da população, também faltam profissionais qualificados para as empresas. Conseqüência disso é que uma fatia do mercado está sendo suprida por autodidatas, empresas procuram pessoas de talento e criatividade que podem ser adequadas e treinadas para as novas necessidades de um mercado em constante mutação, marcas de um país que não treina seus cidadãos, que tem uma política voltada para o imediatismo sem se preocupar a sequencia histórica das próximas gerações. O desemprego não é um problema só do Brasil; ele ocorre na Europa e em toda parte do mundo. Excetuando-se os Estados Unidos, onde a questão está minimizada pelo longo período de crescimento da economia durante o governo de Bill Clinton, nas demais partes do mundo o fenômeno é visto com preocupação. Na Europa, o problema é muito grave; no Japão, atualmente observa-se a diminuição do número de vagas no mercado de trabalho; a Coréia do Sul enfrenta a mesma situação. Nos países subdesenvolvidos, a situação não é diferente.
No Brasil, é grande a preocupação dos trabalhadores, dos sindicatos, das autoridades e dos estudiosos de problemas sociais, a despeito de não possuirmos dados precisos sobre o desemprego, isto porque, enquanto o IBGE fala em taxa de 12%, a Fundação Seade/Dieese fala em 18% na região metropolitana da Grande São Paulo. A verdade é que temos, hoje, em qualquer família alguém desempregado. Essa é uma realidade que está muito próxima de cada um de nós. O desemprego causa vários problemas: para o desempregado, para a família e para o Estado. Para o cidadão desempregado e sua família, o desemprego provoca insegurança, a indignidade, aquela sensação de inutilidade para o mundo social.
A tecnologia, que vem desde a revolução industrial na Inglaterra em 1750, traz problemas, e certamente é uma das principais causas do desemprego mundial. Uma máquina substitui o trabalho de 10, 20, 40 ou mais pessoas. Já foi dito que a revolução industrial provocou insatisfação dos trabalhadores, mas pouco desemprego, porquanto, na época, as vagas fechadas numa empresa eram supridas pela abertura de outras empresas. Além disso, houve a redução da jornada de trabalho para 8 horas e a semana de 5 dias. Todavia, hoje, com a globalização, a informatização, as novas tecnologias, nós temos efetivamente um problema de desemprego estrutural. Vejam o exemplo do banco já citado, onde diminuem em menos da metade os postos de trabalho. Tudo é informatizado, as pessoas não precisam do caixa humano, elas vão direto ao caixa eletrônico. Esses funcionários perdem o emprego e não têm outra oportunidade, porque todos os ramos de atividade estão se modernizando, não só os bancos, mas as indústrias estão sendo robotizadas. Estão desaparecendo muitas profissões e atividades profissionais, porque têm o robô fazendo o trabalho de muitas pessoas. Isso realmente gera desemprego e tanto o governo quanto a sociedade têm que contribuir para encontrar uma solução.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendemos que o objetivo da produção capitalista é a procura do maior lucro possível e quanto maior for o capital, mais elevados são os lucros, pelo que a acumulação é um dos meios para atingir esse fim. Esta característica cada vez mais acarreta o desemprego em massa, e consequentemente a miséria e a pobreza em níveis globais. Defendemos que a solução, momentânea, seja a requalificação profissional. Os profissionais que perdem seus postos de trabalho devem passar por treinamentos e reciclagens. Só assim poderão encontrar outra atividade e assumir uma nova vaga no concorrido mercado de trabalho moderno. O desempregado não pode ficar esperando nova oportunidade para ocupar a mesma vaga que ocupava antes da demissão, mesmo porque aquela vaga, ou melhor, aquela função pode deixar de existir. Aquele que deseja voltar ao mercado de trabalho deve se reciclar, buscando uma colocação em outra área ou ramo de atividade; para isso, ele deve estar preparado. O governo, através dos Fundos de Amparo ao Trabalhador, tem oferecido recursos para treinamentos e reciclagens aos desempregados. Essa iniciativa ajuda, pois o trabalhador, sem essa reciclagem não vai conseguir uma recolocação no mercado de trabalho, mas não resolve o problema. De modo que a questão do emprego é, hoje, a principal preocupação do movimento sindical, do Estado e, principalmente, da família, a que mais sofre com a falta de trabalho e queda da renda, agravando todos os problemas sociais. Sendo assim, a reforma sindical e trabalhista tem que ter como prioridade a procura de caminhos para impor aos governantes a execução de programas de desenvolvimento que resultem em geração de empregos.


REFERENCIAIS


  • Disponível em: < http://pt.shvoong.com/social-sciences/sociology/173322-desemprego-brasil/>. Acesso em: 02/12/2010.



  • Disponível em: < http://pechincha.com.br/Reforma/Pg021Desemprego.htm>. Acesso em: 02/12/2010. 




Participantes da construção desse artigo: Allis Karla; Cenira Karine; Fabíola Meira; Fabíolla Vilar; Silvana Gomes.
Universidade Federal de Campina Grande, 02 de dezembro de 2010


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