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3 de nov. de 2011

FICHAMENTO: Uma breve introdução à filosofia. (THOMAS NAGEL)

Olá meus queridos e queridas! Hoje trago à vocês mais uma sequência de fichamentos (de citação), espero que gostem e comentem =) 


 * O fichamento não é completo, isto é, falta alguns capítulos. Por isso resolvi repetir a referência a cada capítulo, para evitar que você se perca, fique atento!!!


http://www.livrariamartinseditora.com.br/capas/729/9788533623729.jpg

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Primeiro Fichamento
TEXTO: NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. Capítulo III. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 19-26.
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OUTRAS MENTES
 “Há um tipo especial de ceticismo que continua a ser um problema mesmo que você admita que sua mente não é a única coisa que existe – que o mundo físico que você aparentemente vê e sente ao seu redor, até mesmo seu próprio corpo, de fato existe. Trata-se do ceticismo quanto à natureza ou mesmo quanto à existência de outras mentes ou experiências além da sua.” (p.19)

“A única coisa que você observa com clareza são os corpos dos outros seres vivos, incluindo as pessoas.” (p. 19)

 “A única experiência que você pode ter, na verdade, é a sua própria: se acredita que existe alguma vida espiritual nas outras pessoas, essa crença se baseia na sua observação do comportamento e da constituição física delas” (p. 20)

“A única relação que você já observou entre um tipo de sorvete e um certo sabor se deu em você mesmo; assim, o que o leva a pensar que correlações similares são válidas também para os demais seres humanos?” (p.20)

“A única coisa que você pode observar é a correlação que se estabelece em você.” (p.21)

“(...) pode-se admitir aqui um certo grau de incerteza. A correlação entre estimulo e experiência pode não ser exatamente igual para cada um: a experiência de cor ou saber de duas pessoas que provam o mesmo tipo de sorvete pode apresentar ligeiras variações.” (p.22)

“Você poderia dizer, contudo, que as diferenças não podem ser assim tão radicais, pois, do contrário, poderíamos percebê-las.” (p.22)

“Note, porém, que essa afirmação pressupõe uma outra correlação para cada pessoa: a correlação entre a experiência interna e certos tipos de relações observáveis. E, nesse caso, surge a mesma questão.” (p.22)

“O único exemplo da correlação entre mentes, comportamento, anatomia e ocorrências físicas que você já observou diretamente é você mesmo. Mesmo que as outras pessoas e os animais não tivessem nem uma única experiência, nenhuma vida mental interior, mas fossem apenas máquinas biológicas sofisticadas, ainda assim teriam para você exatamente a mesma aparência.” (p.23)

“Sua convicção de que existem mentes nesses corpos, visão por trás desses olhos, audição nesses ouvidos etc. é instintiva.” (p.24)

“Acreditamos, de maneira geral, que os outros seres humanos são conscientes, e quase todos acreditam que os demais mamíferos e os pássaros também são conscientes. Mas as pessoas divergem sobre se os peixes, insetos, vermes e águas-vivas são também conscientes. E a maior parte duvida de que os animais unicelulares, como amebas e paramécios, têm experiências conscientes, embora essas criaturas reajam, de maneira evidente, a vários tipos de estímulos.” (p.24)

“Se uma coisa é incapaz de se mover, ela não pode oferecer nenhum indicio de comportamento sobre o que sente ou percebe.” (p.25)

“Só poderíamos descobrir essas correlações se observássemos ao mesmo tempo as experiências e manifestações externas, mas não há como observar as experiências diretamente, a não ser em nós mesmos. Pela mesma razão, não seria possível observar a ausência de experiência e, conseqüentemente, a ausência de tais correlações, em nenhum outro caso. Não se pode olhar dentro de uma arvore para dizer que ela não tem experiência, da mesma forma que não se pode olhar dentro de um verme para dizer que ele tem experiência.” (p.26)

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Segundo Fichamento
TEXTO: NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. Capítulo IV. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 27-37.
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O PROBLEMA MENTE-CORPO

 “Esqueçamos o ceticismo e admitamos que o mundo físico existe, até mesmo seu corpo e cérebro; e deixemos de lado nosso ceticismo quanto à existência de outras mentes. Admito que você é consciente, se você admitir que eu também sou. Ora, qual pode ser a relação entre a consciência e o cérebro?” (p.27)

“Todos sabem que o que acontece na consciência depende do que acontece ao corpo.” (p. 27)

 “Ao que tudo indica, para que alguma coisa aconteça em sua mente ou consciência, é preciso que algo aconteça no seu cérebro.” (p. 27)

“Em alguns casos, sabemos de que maneira o cérebro afeta a mente e de que maneira a mente afeta o cérebro” (p.28)

“Desconhecemos muitos dos detalhes, mas é evidente que existem relações complexas entre o que acontece na sua mente e os processos físicos que se desencadeiam no seu cérebro. Até aqui, tudo o que foi dito é assunto da ciência, não da filosofia.” (p.28)

“Mas há também uma indagação filosófica sobre a relação entre mente e cérebro, que é a seguinte: a mente é diferente do cérebro, embora esteja vinculada a ele, ou ela é o cérebro? Seus pensamentos, sentimentos, percepções, sensações e desejos são coisas que acontecem além de todos os processos físicos que ocorrem no seu cérebro, ou são, elas próprias, alguns desses processos físicos?” (p.28)

“Suas experiências estão no interior da sua mente com um tipo de interioridade que é diferente do modo como seu cérebro está no interior da sua cabeça. Uma outra pessoa pode abrir sua cabeça e observar o que há dentro dela, mas não pode abrir sua mente e examiná-la – não dessa forma pelo menos.” (p.29-30)

“Se o que aconteceu na sua experiência esta no interior de sua mente de um jeito diferente do que acontece no seu cérebro, parece então que as suas experiências, bem como seus diferentes estados de espírito, não podem ser meros estados físicos do cérebro. Você deve ser algo mais do que um corpo dotado de um buliçoso sistema nervoso.” (p.30)

“Uma conclusão possível é que deve haver uma alma ligada ao corpo, de tal forma que ambos possam interagir. Se isso é verdade, então você é constituído de duas coisas muito diferentes: um organismo físico complexo e uma alma puramente mental. (Essa visão é chamada de dualismo, por razões óbvias.)” (p.31)

“Muitas pessoas, porém, acham que a crença na alma é ultrapassada e não cientifica. Tudo o que existe no mundo é feito de matéria física – diferentes combinações dos mesmos elementos químicos.” (p.31)

“A opinião de que as pessoas não passam de matéria física, e que seus estados de espírito são estados físicos cerebrais, é denominada fisicalismo (ou, às vezes, materialismo). Os fisicalistas não têm uma teoria específica sobre qual processo cerebral pode ser identificado com a experiência de saborear chocolate, por exemplo. Mas acreditam que os estados de espírito são apenas estados do cérebro, e que não há nenhuma razão filosófica para pensar que não sejam. Os detalhes terão de ser descobertos pela ciência.” (p.31-32)

“A ideia é que podemos descobrir que as experiências são, na verdade, processos cerebrais, tal como descobrimos que outras coisas conhecidas têm uma natureza real que não poderíamos ter adivinhado, até que foi revelada pela investigação cientifica.” (p.32)

“(...) embora pareça surpreendente que a experiência de saborear chocolate não seja, talvez, mais do que uma complexa ocorrência física no cérebro, isso não seria mais estranho que as muitas coisas que se descobriram sobre a verdadeira natureza de objetos e processos comuns. ” (p.32)

“Um dualista retrucaria que essas outras coisas são diferentes. Quando investigamos a composição química da água, por exemplo, estamos lidando com algo que pertence claramente ao mundo físico – algo que podemos ver e tocar.” (p.33)

“Uma característica essencial desse tipo de análise é que não se trata de uma decomposição química do modo como vemos, sentimos e saboreamos a água. Essas coisas acontecem na nossa experiência interna, não na água que foi decomposta em átomos. A análise física ou química da água desconsidera essas experiências.” (p.33)

“Um todo físico pode ser analisado em partes físicas menores, mas um processo mental, não. Não é possível somar partes físicas para obter um todo mental.” (p.33)

“Outra possibilidade, contudo, é a de que a vida mental ocorra no cérebro, ainda que todas essas experiências, sentimentos, pensamentos e desejos não sejam processos físicos do cérebro. Isso significa que a massa cinzenta dos bilhões de células nervosas dentro do seu crânio não é apenas um objeto físico. Embora tenha muitas propriedades físicas – uma grande quantidade de atividades químicas e elétricas - , ali também ocorrem processos mentais.” (p.34)

“A concepção de que o cérebro é a sede da consciência, mas que seus estados conscientes não são meros estados físicos, é chamada de teoria do aspecto dual.” (p.34)

“Quando esse processo ocorre, um cientista, ao examinas seu cérebro, poderá observar o aspecto físico, mas é você, internamente, que passará pelo aspecto mental: você é que vai experimentar a sensação de saborear o chocolate. Sendo assim, seu cérebro teria um interior que não poderia ser alcançado por um observador externo, mesmo que ele o abrisse ao meio.” (p.34-35)

“Poderíamos expressar essa ideia ao dizer que você é apenas corpo, não corpo e alma, mas seu corpo, ou pelo menos seu cérebro, não é somente um sistema físico. É um objeto com aspectos físicos e mentais: pode ser dissecado, mas tem um tipo de interior que a dissecação não pode revelar.” (p.35)

“Para os fisicalistas, a única coisa que existe é o mundo físico, que pode ser estudado pela ciência: o mundo da realidade objetiva. Por isso, eles precisam encontrar um lugar nesse mundo para alojar os sentimentos, desejos, pensamentos e experiências – um lugar para você e para mim.” (p.35)

“Pessoalmente acredito quer esse aspecto interno da dor e de outras experiências conscientes não pode ser adequadamente analisado em termos de nenhum sistema de relações causais com estímulos e comportamentos físicos, por mais complexos que sejam.” (p.36)

“Parece haver dois tipos muito distintos de coisas que acontecem no mundo: as coisas que pertencem à realidade física, que muitas pessoas podem observar de fora, e as coisas que pertencem à realidade mental, que cada um de nós experimenta interna e individualmente.” (p.36)

“Nossa concepção geral do mundo será insuficiente até que possamos explicar de que modo os elementos físicos, quando combinados da maneira certa, formam não apenas um organismo biológico funcional, mas também um ser consciente. Se a própria consciência pudesse ser identificada com algum tipo de estado físico, estaria aberto o caminho para uma teoria unificada da mente e do corpo e assim, talvez, para uma teoria unificada do universo.” (p.37)

“A ciência física avançou deixando a mente de fora daquilo que tenta explicar, mas pode ser que haja mais sobre o mundo do que a ciência física é capaz de entender.” (p.37)











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Terceiro Fichamento
TEXTO: NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. Capítulo V. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 39-47.
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O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

 “Como pode uma palavra – um ruído ou uma série de marcas no papel – significar alguma coisa?” (p.39)

“Existem muitos tipos de palavras: algumas delas designam pessoas ou coisas, outras denominam qualidades ou atividades, outras se referem a relações entre coisas ou acontecimentos, outros nomeiam números, lugares ou épocas, e outra ainda, como ‘e’ e ‘de’, só têm significado proque contribuem para dar sentido a afirmações ou perguntas maiores, nas quais aparecem como partes. Na verdade, todas as palavras funcionam desta maneira: seu significado está, efetivamente, relacionado com a contribuição que entre elas dão ao sentido de frases ou enunciados.” (p. 39)

 “Certas palavras podem ser definidas em termos de outras palavras: ‘quadrado’, por exemplo, significa ‘figura plana de quatro lados, eqüilátera e eqüiângula’. A maioria dos termos dessa definição também pode ser definida. Mas as definições não podem ser à base do significado para todas as palavras, do contrario andaríamos eternamente em circulo.” (p. 40)

“Mas o sentido da pergunta, bem como a resposta, depende do fato de que a palavra ‘tabaco’ se refere a todas as amostras da substancia que existem no mundo – incluindo, na verdade, épocas passadas e futuras -, a cada cigarro fumado na China no ano passado, a cada charuto em Cuba, e assim por diante.” (p.41)

“Como a palavra faz isso? Como pode um simples ruído ou rabisco ter tal alcance? É evidente que não é por causa do som ou do aspecto. Nem por causa do número relativamente pequeno de amostras de tabaco com que você deparou, e que estavam por perto quando você pronunciou, ouviu ou leu a palavra. Trata-se de alguma outra coisa, algo de caráter geral, que se aplica ao uso que cada pessoa faz da palavra.” (p.41)

“A palavra, tal como você a usa, tem alguma outra coisa por trás dela – um conceito, ideia ou pensamento – que, de algum modo, se estende a todo tabaco do universo.” (p.42)

“(...) que tipo de coisa é esse intermediário? Está em sua mente, ou é algo fora de sua mente com o qual, de algum modo, você pode fazer uma associação? Parece haver algo com que você, eu e o chinês podemos todos associar, a fim de expressar a mesma coisa com nosssas palavras para tabaco.” (p.42)

“O problema que temos aqui, de como a palavra pode significar a ideia ou o conceito (seja qual for), não é exatamente igual ao que havia antes, de como a palavra pode significar a planta ou a substancia?” (p.42)

“Há também o problema de como essa ideia ou conceito se relaciona com todas as amostras de tabaco real” (p.43)

“Com ou sem o conceito ou a ideia, o problema parece ser o seguinte: o uso que cada pessoa faz de uma palavra envolve sons, marcas e exemplos muito particulares, mas a palavra se aplica a algo universal, que outros falantes particulares também podem expressar por meio dessas palavras ou de outras palavras em outras línguas.” (p.43)

“(...) mesmo que você forme uma certa imagem em sua mente ao ouvir ou usar a palavra ‘tabaco’, cada pessoa provavelmente formará uma imagem diferente.” (p.44)

“O mistério do significado é que ele, aparentemente, não se situa em nenhum lugar -  nem na palavra, nem na mente, nem em nenhum conceito ou ideia pairando entre a palavra, a mente e as coisas sobre as quais estamos falando. Contudo, usamos a linguagem o tempo todo, e ela nos permite formular pensamentos complicados, que transpõem grandes distancias no tempo e no espaço.” (p.44)

“As palavras muitas vezes são usadas simplesmente como ferramentas nas relações entre as pessoas.” (p.45)

“Seja o que for que aconteça nas situações praticas e corriqueiras, deve ser algo suficientemente geral também para explicar essas outras situações, bastante diferentes, em que ela tem o mesmo significado.” (p.46)

“Quando uso a palavra, ela pode ter significado como parte da língua portuguesa, mas de que maneira o uso da palavra por todos os outros falantes da língua lhe dá alcance universal, muito além de todas as situações em que ela é efetivamente usada? O problema da relação da linguagem com o mundo não é diferente, quer falemos de uma frase ou de bilhões de frases. O significado de uma palavra contém todos os seus possíveis, verdadeiros e falsos, não apenas seus usos efetivos – e estes são apenas uma fração mínima dos usos possíveis” (p.47)

“Somos pequenas criaturas finitas, mas o significado nos permite, com a ajuda de sons ou marcas no papel, entender o mundo inteiro e as muitas coisas que há nele, até mesmo inventar coisas que não existem e que, talvez, nunca venham a existir. O problema é explicar como isso é possível: como alguma coisa que dizemos ou escrevemos – inclusive todas as palavras contidas neste livro – pode significar algo?” (p.47)
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Quarto Fichamento
TEXTO: NAGEL, T. Uma breve introdução à filosofia. Capítulo VI. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 49-61.
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LIVRE-ARBÍTRIO


 “(...) até o momento da escolha, não há nada que determine irrevogavelmente qual será a sua escolha” (p.51)

“Não havia nenhum processo ou força em ação, antes da sua escolha, que tornasse inevitável que você escolhesse o bolo de chocolate.” (p. 52)

 “Algumas pessoas acham que nunca é possível fazer diferente do que na verdade fazemos, nesse sentido absoluto. Reconhecem que dependemos de fato de nossas escolhas, decisões e vontades, e que fazemos diferentes escolhas em diferentes circunstâncias: não somos como a Terra, girando em torno do seu próprio eixo com uma regularidade monótona. Mas afirmam que, em cada situação, as circunstâncias que se apresentam antes de agirmos determinam nossas ações, tornando-as inevitáveis. A soma total das experiências, dos desejos e do conhecimento de uma pessoa, sua constituição hereditária, as circunstâncias sociais e a natureza da escolha que ela tem diante de si, juntamente com outros fatores que talvez desconheçamos, combinam-se para tornar inevitável uma ação particular nessas circunstâncias.” (p. 53)

“Essa visão chama-se determinismo. A ideia não é que podemos conhecer todas as leis do universo e usá-las para prever o que irá acontecer. Em primeiro lugar, não podemos conhecer todas as complexas circunstâncias que influenciam uma escolha humana. Em segundo, mesmo quando aprendemos alguma coisa sobre as circunstancias, e tentamos fazer uma previsão, isso por si só é uma mudança nas circunstancias, que pode alterar o resultado previsto. Mas a questão não é a de que existem leis naturais, como as que governam o movimento dos planetas, que governam tudo o que acontece no mundo – e, de acordo com essas leis, as circunstâncias que antecedem uma ação determinam o que irá ocorrer e excluem qualquer outra possibilidade.” (p.53-54)

“Sua escolha foi determinada pela situação imediatamente anterior, e essa situação, por sua vez, foi determinada pela situação anterior a ela, e assim sucessivamente até onde você queira recuar no tempo” (p.54)

“Ainda que o determinismo não se aplique a todas as coisas que ocorrem – mesmo que alguns acontecimentos não sejam determinados por causas que já existiam de antemão - , seria de qualquer modo muito significativo se tudo que fizéssemos já estivesse determinado antes de o fazermos.” (p.54)

“Se acreditasse nisso acerca de si mesmo e das outras pessoas, o modo como você se sente a respeito das coisas provavelmente mudaria.” (p.55)

“Se já estava determinado que ela assim o faria, era inevitável: ela não poderia agir de outra forma, dadas as circunstancias em que se encontrava.” (p.55)

“Algumas pensam que, se o determinismo é verdadeiro, então não faz sentido elogiar nem culpar alguém por coisa alguma, da mesma forma que não faz sentido culpar nem elogiar a chuva por cair. Outros acham que faz sentido elogiar as boas ações e condenar as más, ainda que sejam inevitáveis. Afinal, o fato de alguém estar predeterminado a agir mal não significa que ela não agiu mal.” (p.56)

“(...) se pensamos que a ação dele estava predeterminada, então puni-lo seria semelhante a punir um cachorro por roer o tapete. Não significa que não o consideramos responsável pelo que fez: estamos apenas tentando influenciar seu comportamento futuro. Pessoalmente, não creio que faça sentido culpar alguém por fazer uma coisa que era impossível para ele deixar de fazer.” (p.56)

“Muitos cientistas acreditam hoje  que ele não se aplica as partículas básicas da matéria – que, numa dada situação, há mais de uma coisa que um elétron pode fazer. Se o determinismo também não se aplica as ações humanas, talvez então haja espaço para o livre-arbítrio e para a responsabilidade” (p.57)

“Uma resposta possível seria a de que não há resposta para essa pergunta. A ação livre é uma característica básica deste mundo e não pode ser analisada” (p.58)

“Algumas pessoas deixariam por isso mesmo. Outras, porém, acham suspeito que tenhamos de apelar a essa ideia inexplicada para explicar em que sentido você poderia ter escolhido o fruto em vez do bolo. Até aqui, parecia que o determinismo era a grande ameaça à responsabilidade. Agora, no entanto, parece que, mesmo que nossas escolhas não sejam predeterminadas, ainda assim é difícil entender de que modo podemos fazer aquilo que não podemos fazer.” (p.58)

“(...) seja o determinismo verdadeiro ou falso, não somos responsáveis por nossas ações. Se o determinismo é verdadeiro, as circunstancias anteriores são responsáveis. Se o determinismo é falso, nada é responsável. Seria, sem duvida, um beco sem saída.” (p.59)

“Há uma outra hipótese possível, completamente oposta à maior parte do que falamos até agora. Algumas pessoas acham que a responsabilidade por nossas ações requer que nossas ações sejam determinadas. Para que uma ação seja algo que você fez. Dizem elas, precisa ser resultado de certas causas presentes em você.” (p.59)

“(...) a determinação casual, por si mesma, não é uma ameaça à liberdade – somente um certo tipo de causa a ameaça.” (p.60)

“Se pensasse que tudo o que fiz foi determinado pelas minhas circunstancias e pela minha condição psicológica, eu me sentiria encurralado. E, se pensasse a mesma coisa sobre todas as outras pessoas, sentiria que não somos mais do que um bando de marionetes. Não faria sentido considerá-las responsáveis por suas ações, da mesma forma que não se pode responsabilizar um gato, um cachorro ou mesmo um elevador.” (p.60)

“Para evitar essa conclusão, você teria de explicar (a) o que quer dizer quando diz que poderia ter feito outra coisa em vez daquilo que fez, e (b) como você e o mundo teriam de ser para que isso fosse verdade.” (p.61).

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É isso pessoal, espero que tenham gostado! AGORA...


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6 de jan. de 2011

TEXTO I - "O PORTADOR"

Autor: Antônio Cândido de Mello e Souza 

 

O pensamento de Nietzsche chegou muito cedo ao Brasil, por vias diretas e tortas. Mas foi em 1946, quando a difamação de Nietzsche estava em seu apogeu, especialmente nos meios de esquerda, que se levantou uma primeira voz em sua defesa (ou melhor, em defesa dos que estavam ameaçados de perder, por preconceito, o "presente feito à humanidade" com sua obra): era um jovem crítico literário de São Paulo, preocupado, já então, com a necessidade de "recuperarmos Nietzsche". Hoje todos sabem quem é Antônio Cândido. Mas poucos da nova geração tiveram oportunidade de conhecer esse ensaio, publicado pela primeira vez no rodapé semanal do Diário de São Paulo ("Notas de Crítica Literária"), e incluído mais tarde no Observador Literário (Comissão Estadual de Cultura, 1959), livro atualmente mais que esgotado. Hoje, que ao menos em parte o preconceito se desfez e o trabalho filológico está trazendo a obra à sua verdadeira luz, nada mais oportuno, depois da aventura através dos textos, do que reter esse estudo e reconhecer a justeza, a coragem da lucidez, sempre possível, mesmo em épocas traumatizadas. Por essa razão, com especial consentimento do autor, esse dito ensaio é reeditado aqui, em apêndice a estas "obras imcompletas" de Nietzsche. (Rubens Rodrigues Torres Filho)   

É preciso afastar, em relação a pensadores como Nietzche, o conceito de guerra - propagandístico ou ingênuo  -, que o encara como uma espécie de Rosenberg mais fino e procura ver no seu pensamento o precursor do nazismo. Esse antipangermanista convicto deve ser considerado o que realmente é: um dos maiores inspiradores do mundo moderno, cuja lição, longe de exaurida, pode servir de guia a muitos problemas do humanismo contemporâneo.          
 
Mesmo rejeitando o conteúdo das suas idéias, devemos reter e ponderar a sua técnica de pensamento, como propedêutica à superação das condições individuais. “O homem é um ente que deve ser ultrapassado”, disse ele; e o que propõe é ultrapassar incessantemente o ser de conjuntura, que somos num dado momento, a fim de buscar estados mais completos de humanização. Talvez pudêssemos indicar os rumos da sua propedêutica, dizendo que visa a uma expansão mais completa das energias de que somos portadores, e nesse sentido é elucidativa a preocupação de ascese, de exercício preparatório, que atravessa toda a sua obra. Por isso invoca ou sugere uma certa dureza e a abolição da autocomplacência: ver duro e cru, em si e nos outros, para ser capaz de ver justo e bom, posto que justiça e bondade repousam sobre a energia com que superamos as injunções, as normas cristalizadas, tudo enfim que tende a imobilizar o ser em posições já atingidas e esvaziadas de conteúdo vivo. O que é tacitamente aceito por nós; o que recebemos e praticamos sem atritos internos e externos, sem ter sido por nós conquistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incorporamos à rotina, reverenciamos passivamente e se tornam peias ao desenvolvimento pessoal e coletivo. Ora, para que certos princípios, como a justiça e a bondade, possam atuar e enriquecer, é preciso que surjam como algo que obtivemos ativamente a partir da superação dos dados. "Obtém a ti mesmo" - é o conselho nietzschiano que o velho Egeu dá ao filho, no Teseu, de Gide. Para essa conquista das mais lídimas virtualidades do ser é que Nietzsche ensina a combater a complacência, a morbidão das posições adquiridas, que o comodismo intitula moral, ou outra coisa bem soante. Na sua concepção há uma luta permanente entre a vida que se afirma e a que vegeta; parecia-lhe que esta era acoroçoada pelos valores rotinizados da civilização cristã e burguesa.
Realmente, se submetermos a análise rigorosa a maneira por que damos abrigo aos valores espirituais, veremos que em nossa atitude há mais de comodismo e flacidez moral do que propriamente crença ativa e fecundante. Aceitamos por via de integração, participação submissa no grupo, tendendo a transformar os gestos em simples repetição automática. Fazemo-lo para evitar as aventuras da personalidade, as grandes cartadas da vida, julgando pôr em prática valores conquistados por nós mesmos. Ora, a obra de Nietzsche nos pretende sacudir, arrancar deste torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos. Encarada assim, a exaltação do homem vital e sem preconceitos vale, de um lado, como retificação do humanitarismo freqüentemente ingênuo do século XIX: de outro, como reivindicação da complexidade do homem, contra certas versões racionalistas e simplificadoras.
Com efeito, ele afirma longamente em sua obra (de modo quase sistemático na primeira parte de Além de Bem e de Mal, por exemplo) que o homem é mais complexo do que supõem as normas e convenções. Bem antes das modernas correntes da psicologia, analisou a força e importância dos impulsos de domínio e submissão, concluindo que há em nós um animal solto que também compõe a personalidade e influi na conduta. Naquela obra, insiste sobre a presença no tecido da vida humana, dessas componentes, que a moral e a convenção procuram eliminar, depois de as haverem condenado.
A sua teoria da consciência como superfície, afloramento de obscuridades que não se pressentem, anuncia a psicanálise, como podemos ver nas longas exposições da Vontade de Potência. Sob este ângulo, e apesar do desvirtuamento da expressão, o super-homem aparece como tipo superiormente humano - um ente que consegue manifestar certas forças de vida, mutiladas em outros por causa da noção parcial que a psicologia e a moral convencionais oferecem de nós. Em meio à hipocrisia, à debilidade da consciência na burgueia européia do fim do século XIX; ao humanitarismo manhoso com que procurava adormecer o sentimento de culpa, Nietzsche assume por vezes uma estatura de justiceiro. E um exemplo da ironia que espreita na posteridade as idéias dos filósofos é o fato de muitas dessas virtudes de dureza propedêutica terem sido encarnadas, no século XX, por uma raça de homens que ele sempre considerou progênie de escravos. Na elite revolucionária que implantou o socialismo na Rússia, encontravam-se, como a realização impressionante duma profecia, as qualidades de implacável retidão que atribui, em Vontade de Potência, ao "Legislador do Futuro" - que poda sem dó a fim de favorecer a expansão plena, e cuja dureza aparente é, no fundo, amor construtivo pelos homens.
Nele, porém, esta atitude só adquire significado reposta no conjunto da obra - naquela mistura, tão sua, de fervor e irreverência, destruição raivosa e júbilo construtivo, que é a única possibilidade do nosso tempo e ele anteviu como profeta. Para a opinião dominante, a sua crítica violenta fez dele um personagem incômodo, ante o qual se fecham as portas da cidade, como as que, na parábola final de Humano, Demasiado Humano, rejeitam o peregrino para a noite do deserto. Ele vinha romper uma série de hábitos tacitamente aceitos, e mostrar que a própria filosofia não dava mais conta das obrigações para com a vida.
Talvez se possa dizer, com efeito, que, a partir do século XVII e até o nosso, ela cuidou mais da natureza do espírito e das condições do seu funcionamento, que do seu caráter de aspecto da atividade humana total. Doutro lado, analisou de preferência tudo que condiciona o comportamento e dele resulta; raras vezes desceu às suas raízes vivas. Semelhante tarefa coube não raro à arte, cuja importância como forma de conhecimento não decresceu no mundo moderno, como se poderia pensar à primeira vista. A acuidade psicológica, por exemplo, não se confunde com a competência dos especialistas, e deve ser buscada menos neles do que em obras como as de Dostoiévski, Proust, Pirandello ou Kafka; e não é de estranhar que o maior psicólogo do nosso tempo, Freud, seja uma espécie de ponte entre o mundo da arte e o da ciência; entre os processos positivos de análise e a intuição estética.
Nietzsche se situa no universo dos psicólogos artistas, e daí decorre o significado central da sua obra. Enquanto algumas e por muitos lados melhores tendências do pensamento oitocentista procuravam resolver o problema da vida em sociedade criticando as condições de existência, ele tentou atingir diretamente o núcleo da personalidade. Se Marx ensaiava transmudar os valores sociais no que têm de coletivo, ele ensaiou uma transmutação do ângulo psicológico - do homem tomado como unidade duma espécie, pela qual é decisivamente marcado, sem desconhecer, é claro, todo o equipamento de civilização que intervém no processo. São atitudes que se completam, pois não basta rejeitar a herança burguesa no nível da produção e das ideologias; é preciso pesquisar o subsolo pessoal do homem moderno tomado como indivíduo, revolvendo as convenções que a ele se incorporam, e sobre as quais assenta a sua mentalidade.
Daí a conseqüente transmutação dos valoes morais. Discípulo dos grandes analistas franceses, apaixanado de Stendhal e Dostoiévsk, dando uma sentença de Pascal por toda a metafísica alemã, continua os grandes investigadores da conduta, concebida como arte. O seu objetivo é lançar as bases de uma nova ética, acessível aos homens "que se obtém" - homens superiores que alargarão até os outros aquilo que conquistaram penosamente, cauterizando em si a herança de uma civilização desvirtuada. "É certo que todos nós temos laços e afinidades que nos ligam ao santo, assim como um parentesco espiritual nos vincula ao filósofo e ao artista" - diz numa das Considerações Extemporânes. Em conseqüência, todo progresso no sentido da realização do super-homem significa riqueza coletiva, na medida em que atuam essas afinidades secretas que, ligando-o a todos, a todos enriquecem pela comunicação da seiva. 
          
Para favorecer o aparecimento dos homens superiores, é preciso alterar o modo de encarar a vida e o conhecimento. O ideal nietzschiano seria o pensador que passeia livremente pela vida e recusa considerar a atividade criadora uma obrigação intelectual; o homem que, para fecundar a si e aos outros, suprime o hiato existente as mais das vezes entre conhecer e viver.
No belo trecho final de Irreligião do Futuro, Guyau chama ao filósofo - amigo do descohecimento: cet ami de l'inconnu. Ele é, com efeito, irmão do aventureiro,  e não deve renegar o parentesco vivificante. Enquanto um se desapega da estabilidade e da rotina para obter em torno de si a mudança permanente das pessoas, lugares ou situações - outro opera de maneira semelhante no terreno do espírito, jogando fora convicções, crenças, noções, para obter alguma coisa nova ao cabo dessas rejeições múltiplas e por vezes fatais. Ambos atiram lenha à fogueira, aquecendo-se ao calor de coisas arrancadas à sua norma de vida: fogueira da existência ou fogueira do pensamento. Em muitos casos, ambas.
Vindo após séculos de filosofia catedrática, Nietzsche se revoltou violentamente contra a mutilação do espírito de aventura pela oficialização das doutrinas. E a seu modo foi um aventureiro, não só na existência agitada e ambulante, à busca de lugares novos, emoções renovadas (como alguém que necessita atritar-se com o mundo para despedir faíscas de vida), mas também no pensamento, à busca de ângulos novos, posições inexploradas, renovando sem parar as técnicas do conhecimento. A intervenção feliz de um gênio familiar impediu sempre as suas  tentativas de amarrar as idéias em sitemas amplos e fechados.¹ Exprimiu-se de preferência em trechos breves, aforismos e cânticos, a fim de que tudo o que borbulha não fosse canalizado pelo desenho geométrico dos tratados; e para que a filosofia não renunciasse ao privilégio da permanente aventura, a troco da estabilidade que se obtém fechando os olhos ante a fuga vertiginosa das coisas. O tipo de pensador nietzschiano é o Peregrino, o Wanderer, cuja sombra se projeta pelos quatro cantos e nunca vende a alma ao estável, ao tranqüilo, porque deseja manter-se fiel ao desconhecido, enfrentando-o com a coragem da aventura. A mencionada página final de Humano, Demasiado Humano (1ª Parte) define este repto permanente da filosofia, e é das mais belas que se escreveram sobre o destino do pensador, rejeitando a segurança ilusória de que se nutrem os homens médios, para não permanecer de olhos baixos, cego em meio à vida que estua no desconhecido, oferencendo aventuras que glorificam e consomem:
"Quem atingiu dalgum modo a liberdade da razão não se pode considerar na terra outra coisa que um Peregrino, embora não um viajante rumando para uma meta final - pois esta não existe. Contemplará e terá os olhos abertos para tudo que acontece no mundo; não ligará o coração em definitivo a nada de único; deve haver nele algo erradio, pois a sua alegria está no mutável e no inconstante. Por certo cairão noites penosas sobre um homem desse - quando estiver cansado e encontrar fechadas as portas da cidade, que lhe deveria dar repouso. Pode ser, ainda mais, que o deserto chegue até a elas, como no Oriente, e as feras ululem, ora perto, ora longe, e um vento forte se eleve, e os salteadores lhe roubem os animais de carga. Desce então uma noite terrível, como um segundo deserto no deserto, e o Peregrino se sentirá exausto no coração. Quando o sol levantar, abrasando como a divindade da ira, abre-se a cidade, e nas faces dos habitantes ele verá talvez mais deserto, mais sujeira, mais embuste e mais insegurança do que fora de portas - e o dia será quase pior que a noite. Isto pode, na verdade, ocorrer a um Peregrino; mas depois virão, como recompensa, manhãs deleitosas, noutra paragem e noutro dia, onde, através do dilúculo, verá bandos de musas bailarem perto, na névoa das montanhas; onde, em seguida, quando passear à sombra das árvores, na serenidade da manhã, cair-lhe-ão, dentre os ramos e a folhagem, coisas boas e claras, dádivas dos espíritos livres, que se acomodam bem, como ele, nos montes, florestas e solidões, e são, como ele, de maneira ora alegre, ora pensativa, peregrinos e filósofos. Oriundos do mistério da madrugada, pensam no que pode fazer tão pura, luminosa, jovialmente transfigurada a fisionomia do dia entre a décima e a décima segunda pancada do sino: andam a buscar a Filosofia da Manhã".
¹ Hoje, após os trabalhos e a edição de Karl Schlechta, sabemos com certeza que a Vontade de Potência, como foi publicada, sobretudo nas últimas edições, chmadas completas, não passa duma ordenação arbritária de fragmentos que não haviam sido destinadas a qualquer obra sistemática. O "sistema" e suas implicações capiciosas nasceu do interesse fraudulento de sua irmã e respectivos colaboradores, ingênuos ou cúmplices conscientes. (Nota de 1959.) 
Sob esta roupagem alegórica, sob a graça deste estilo a que a tradução retira o aspecto por assim dizer miraculoso, Nietzsche é eminentemente um educador. Propõe sem cessar, como aqui, uma série de técnicas libertadoras, levando-nos ao paradoxo de pensar, como Gide, nos Pretextos, que a sua "influência (...) importa mais que a sua obra". Talvez seja verdade, grata a quem exclamou na Gaia Ciência: "Para que serve um livro que não for capaz de nos transportar além dos livros?". Os seus conduzem para o terreno da aventura espiritual; livros de movimento, que têm um pacto misterioso com a dança, elemento chave do seu pensamento: "Há escritores que, pelo fato de representarem o impossível como possível, e falarem do que é moral e genial como se ambos não passassem de fantasia, capricho, provocam um sentimento de alegre liberdade, como se o homem se pusesse sobre a ponta dos pés e, graças a um júbilo interior, fosse obrigado literalmente a dançar" (Humano, Demasiadamente Humano).
É claro que os seus livros, que ensinam a dançar, não emanam de um filósofo profissional, mas de alguém bastante acima do que nos habituamos a conceber dste modo. Como poucos, em nosso tempo, é um portador de valores, graças ao qual o conhecimento se encarna e flui no gesto de vida. "Aqui, a certeza é um jogo; dir-se-ia que o conhecimento encontrou o seu ato, e que de repente a inteligência aceita as graças espontâneas" (Valéry).
Há, com efeito, seres portadores, que podemos ou não encontrar, na existência cotidiana e nas leituras que subjugam o espírito. Quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. Geralmente, ficamos ofuscados um instante quando os vemos e, sem força para os receber, tergiversamos e nos deviamos deles. A opacidade se refaz, então, a mediania recobra o domínio e só resta a lembrança, de efeitos variáveis. Os coevos lobrigavam chamas do inferno na barra da túnica de Dante; nos nossos olhos resta igualmente a nostalgia do reino perdido, como no soneto admirável de Antero de Quental:
 
E assentado entre as formas imperfeitas,
Para sempre fiquei pálido e triste.
 
Os portadores, que eletrizaram um instante, por via da participação misteriosa de que fala Nietzsche, esses, continuam, como ele próprio continuava, irrequietos e irremediáveis.
Entretanto, embora nos iluminemos apenas um instante e os portadores sigam, o que seria da vida e do pensamento se não houvesse oportunidades semelhantes? As idéias e valores existem ante nós como alvos inatingíveis, e o nosso destino é tender a eles. Por isso a vida é uma tendência sem fim, excetuados os momentos de plenitude que suspendem a corrente do tempo. Não obstante, enquanto permanecermos de um lado, e os valores de outro, o esforço e a lucidez da nossa visão serão mais ou menos frouxos. Na vida, só sentimos a realidade dos valores a que tendemos, ou que pressentimos, quando nos pomos em contato com certos intermediários, cuja função é encarná-los, como portadores que são. A abstração e o sentimento adquirem vida (la connaissance a trouvé son acte, diria Valéry) e somos capazes de sentir plenamente, viver os valores. Ao contrário da vida, que dispersa, os portadores condensam e unificam extraordinariamente; daí se imporem como um bloco e fazerem ver a vida como um bloco, que nos afasta por um momento da mediania e impõe uma necessidade quase desesperada de vida autêntica.
       
"Os homens necessitam constantemente de parteiras." A teoria do super-homem é o conjunto de técnicas necessárias, segundo Nietzsche, para formar estas parteiras de que fala. A profundidade do seu desconhecido humanismo provém da decisão fundamental de nada conceber na vida se não for como encarnação de valor, corporizado na presença humana. E para encerrar estas notas sobre um dos maiores portadores do nosso tempo, nada mais oportuno que a citação de um de seus escritos de mocidade: "Os gregos eram o oposto de todos os realistas, porque, a falar a verdade, só acreditavam na realidade dos homens e dos deuses, e consideravam a natureza inteira como uma espécie de disfarce, de mascarada e metamorfose desses homens-deuses. Para eles, o homem era a verdade e essência das coisas; o resto não passava de fenômeno e miragem". Na nossa época, ao se abrir a primeira fase da história em que será preciso reorganizar o mundo sem apelo ao divino, o que se poderia dizer de melhor para instalar o homem na sua humanidade?... Recuperemos Nietzsch.


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Comentário sobre o artigo de Antonio Cândido “O portador”.

Olá pessoal!

Este texto (O portador) é muito bacana, e penso que todos que querem conhecer um pouco mais sobre Nietzsche devem dar uma lida nele, É SÓ PROCURAR NO ARQUIVO DO BLOG.

Este post tem intuito de apresentar argumentos de Antonio Cândido, que enfatizam a importância de Nietzsche para a história do pensamento. Sirvam-se!


A princípio achamos necessário articular sobre o estudioso da literatura brasileira e estrangeira, que possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do mundo, Antonio Candido de Mello e Souza, que além de crítico literário soma-se a atividade acadêmica como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Aos 28 anos ele publicou um ensaio no Diário de São Paulo intitulado “O Portador”, este que foi um dos primeiros textos a apontar a necessidade de se recuperar o pensamento nietzschiano. Um detalhe oportuno de ser lembrado é que isso ocorreu em 1946, época em que a difamação de Nietzsche estava em seu apogeu. Este ensaio que teve como finalidade: a necessidade de “recuperarmos Nietzsche”; tentar afastar dele todo o estigma do conceito de guerra (que o coloca como percussor do nazismo); acrescentar que ele é um dos maiores inspiradores do mundo moderno; e afirma que suas obras servem de guia para muitos dos problemas do humanismo contemporâneo. Para justificar sua defesa, Antônio Cândido, dá ênfase a muitos trechos das obras de Nietzsche, partindo da afirmação determinante de que as mesmas nos promete sacudir, arrancar deste torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos. E em seguida, de forma estratégica ele começa a abordar sobre a importante contribuição de Nietzsche para história do pensamento: na sequência o autor expõe em seu texto que “Bem antes das modernas correntes da psicologia, ele [Nietzsche] analisou a força e importância dos impulsos de domínio e submissão, concluindo que há em nós um animal solto que também compõe a personalidade e influi na conduta” (com isso fica evidente a tentativa feliz de Antonio Cândido de ressaltar a contribuição de Nietzsche a psicologia); posteriormente, nosso autor fala da sua [de Nietzsche] influencia sobre a psicanálise argumentando que isso pode ser observado nas longas exposições da Vontade de Potência (e para evidenciar esse contexto o autor comenta sobre o super-homem – que aqui preferimos chamar: além-do-homem – e diz que essa figura usada por Nietzsche é um ente que consegue manifestar certas forças de vida, mutiladas em outros por causa da noção parcial que a psicologia e a moral convencionais oferecem a nós). É fato que o professor Antonio Candido não coloca em foco muitas outras contribuições de Nietzsche, mas podemos citar algumas que são muito próximas dos campos da nossa cultura: no que diz respeito à Literatura brasileira, vários autores - como Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Clarice Lispector - se deixaram marcar pelo pensamento nietzschiano. Isso sem falar em Oswald e Mário de Andrade. Nas Artes Plásticas, a figura de eminência que foi influenciada por Nietzsche é Hélio Oiticica. No teatro, José Celso Martinez; na música popular, Jorge Mautner e Caetano Veloso. Isso sem falar na Sociologia. Florestan Fernandes, Sérgio Buarque e Otávio Velho.
Na leitura desse texto percebemos que o brio de Nietzsche e a reviravolta que provocou são reflexos da sua concentração na conduta humana, é exatamente por esse motivo que Nietzsche faz críticas à própria filosofia que por muitas vezes aparece, desde a Idade Média, mumificada através de conceitos. É como diz Candido, Nietzsche veio "romper uma série de hábitos tacitamente aceitos, e mostrar que a própria filosofia não dava mais conta das obrigações para com a Vida". Com isso Nietzsche apresentava uma atenção mordaz sobre o comportamento (basicamente irracional) do homem que mantinha-se aprisionado às convenções das
normas cristalizadas e consequentemente era incapaz de ver com objetividade qualquer coisa a seu redor ou em seu interior. De forma muito clara, Candido também aborda a figura do Peregrino (criada por Nietzsche) revelando que essa figura - cuja sombra se projeta pelos quatro cantos e nunca vende a alma ao estável, ao tranqüilo, porque deseja manter-se fiel ao desconhecido, enfrentando com a coragem da aventura. - deve servir de modelo para o pensador nietzschiano. Após essa explicação nos é colocado as conseqüências de ser um peregrino (... quando estiver cansado e encontrar fechadas as portas da cidade, que lhe deveria dar repouso. Pode ser, ainda mais, que o deserto chegue até a elas, como no Oriente, e as feras ululem, ora perto, ora longe, e um vento forte se eleve, e os salteadores lhe roubem os animais de carga. Desce então uma noite terrível, como um segundo deserto no deserto, e o Peregrino se sentirá exausto no coração. Quando o sol levantar, abrasando como a divindade da ira, abre-se a cidade, e nas faces dos habitantes ele verá talvez mais deserto, mais sujeira, mais embuste e mais insegurança do que fora de portas - e o dia será quase pior que a noite.) e em seguida a recompensa (mas depois virão, como recompensa, manhãs deleitosas, noutra paragem e noutro dia, onde, através do dilúculo, verá bandos de musas bailarem perto, na névoa das montanhas; onde, em seguida, quando passear à sombra das árvores, na serenidade da manhã, cair-lhe-ão, dentre os ramos e a folhagem, coisas boas e claras, dádivas dos espíritos livres, que se acomodam bem, como ele, nos montes, florestas e solidões, e são, como ele, de maneira ora alegre, ora pensativa, peregrinos e filósofos.) assim nos faz familiarizarmos com essa figura de espírito livre que anda em busca da Filosofia da Manhã e combate o comodismo dos costumes adquiridos
Em linhas gerais, Cândido diz que “Nietzsche é eminentemente um educador”, e justifica essa colocação ao dizer que Nietzsche propõe sem cessar uma série de técnicas libertadoras levando ao paradoxo de pensar. E em seguida diz que os livros de Nietzsche conduzem para o terreno da aventura espiritual, pois são livros de movimento, que têm um pacto misterioso com a dança, e isso é exatamente o elemento chave do seu pensamento. E o suntuoso disso tudo ele justifica com a seguinte afirmação: “É claro que os seus livros, que ensinam a dançar, não emanam de um filósofo profissional, mas de alguém bastante acima do que nos habituamos a conceber deste modo. Como poucos, em nosso tempo, é um portador de valores, graças ao qual o conhecimento se encarna e flui no gesto de vida.” É neste momento que entra em sena a figura do Portador, desta vez usada pelo nosso autor, que nessa abordagem apresenta de maneira muito generosa algumas características que nos faz compreender essa figura. Candido diz “que os portadores são seres, que podemos ou não encontrar, na existência cotidiana e nas leituras que subjugam o espírito e quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. Geralmente, ficamos ofuscados um instante quando os vemos e, sem força para os receber, tergiversamos e nos desviamos deles. A opacidade se refaz, então, a mediania recobra o domínio e só resta a lembrança, de efeitos variáveis.” Com isso acreditamos que o indivíduo Portador, é aquele que conseguiu suportar as dores pelos músculos atrofiados, saiu da caverna e com muita honestidade de propósito buscou levar aos outros à luz que permite a contemplação de uma existência mais real.
Concluindo, Candido declara que Nietzsche é um dos maiores portadores do nosso tempo, e por essa razão avaliamos que mesmo ao rejeitarmos alguns conteúdos de suas (de NIETZSCHE) idéias, devemos reter e ponderar a sua técnica de pensamento, com objetivo de reter uma visão mais aguçada das coisas do nosso cotidiano, com isso consequentemente obtém-se uma superação das condições individuais e por fim, consegue-se sair da caverna. E o professor ANTONIO CÂNDIDO conclui as páginas deste ensaio de uma forma sensacional: “Recuperemos NIETZSCHE”. – um grifo que nos instiga a ultrapassar incessantemente o ser de conjuntura, que somos num dado momento, a fim de buscar estados mais completos de humanização.










Bibliografia:

• Cândido, Antonio. O portador. In:_. Obras Incompletas. Tradução e notas de Rubens R. Torres Filho. 3. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Coleção Os Pensadores).

• http://petroleo1961.spaces.live.com/Blog/cns!7C400FA4789CE339!942.entry
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17 de set. de 2010

O Homem Louco, de Nietzsche

Deus está morto! – Com essa frase provocativa Nietzsche sintetizou um momento histórico de sua época. Aqui, Nietzsche não quis dizer o que comumente as pessoas acreditam significar a frase, isto é, enquanto expressão do ateísmo, Nietzsche enquanto o “assassino” de Deus, uma crítica aos religiosos, a morte física de Deus, entre outras interpretações vagas que não buscam além de uma mera interpretação literal de uma frase fora de contexto.
Nietzsche tem muitas frases que chamam a atenção do leitor, é justamente para provocá-lo, para exigir que não o ouça enquanto um devoto mas que busque interpretações, para instigá-lo à lançar mais do que um olhar à realidade e desconfiar de tudo: ir para além do bem e do mal.
Buscarei aqui apresentar alguns desdobramentos dos vários que são possíveis dentro dessa instigante provocação de Nietzsche: a morte de Deus. Quem o matou? Por quê?


O homem Louco. - Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá , por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele.“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os aos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas , se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Referencia: a guia ciência (1882), no aforismo 125.





VAMOS ANALIZAR?!



Primeira constatação é que não foi Nietzsche que disse “Deus está morto”, foi o homem louco, isto é, o homem que não está preso à razão, à metafísica e a um sistema de valores moral que coloca o mundo em oposições dualistas entre o “certo” e o “errado”, a “verdade” e a “mentira”, entre outras que, ingenuamente, o homem até então, acredita que são marcas inerentes à vida.

Este homem, o louco, é antes de tudo aquele que lança sobre a vida diferentes olhares e perspectivas, não estando interessado em encontrar nenhuma “verdade” ou “mentira”, pois sabe que a vida não comporta medidas. Desse modo, ele dança alegremente com várias melodias, busca ouvir os seus impulsos e o seu corpo, usa a razão e o conhecimento para o bem-viver e sabe que as leis da razão foram inventadas por nós. Assim, ele se vê diante do inaudito, isto é, de um mundo e de uma vida que emanam uma multiplicidade de forças casuais da qual ele jamais poderá apreender em sua totalidade, e seu próprio corpo também entra nessa relação, de tal forma que os potenciais que se revelam no instante somente são apreendidos enquanto representações.
Dentro do contexto da época, a morte de Deus é um olhar de Nietzsche sobre a história, mostrando uma ruptura da teologia com o homem moderno que coloca a razão acima de todas as coisas. É interessante levar em conta que a crítica de Nietzsche não é a razão enquanto capacidade do homem, mas sim enquanto objeto de supremacia humana, isto é, como se a razão fosse a chave para todos os enigmas. Nesse sentido, a ciência moderna é tão dogmática quanto o cristianismo, na medida em que acredita que o mundo e os fenômenos carregam uma “verdade” inerente na qual o homem, debruçando-se através da razão, passa a descobrir.
O homem louco percebeu que a ciência moderna, a revolução científica, os ideais renascentistas e iluministas, o pensamento racional de Descartes, Kant e outros, tinham destronado Deus na medida em que os homens deixaram, cada vez menos, de precisar das explicações teológicas e passaram a acreditar na razão enquanto divindade. Nesse sentido, Deus apenas perdeu o trono para o “deus Razão”. Também é esta razão que os ateístas da época tomavam como fio condutor para denegrir as religiões, mas Nietzsche também atinge os ateus, pois eles deixaram de crer em Deus e passaram a crer na Razão, isto é, estão presos a dogmas, protocolos, leis e ao pensamento linear de causa e efeito.
As pessoas, por mais religiosas que fossem, passaram a ir menos até o padre buscar uma cura para suas doenças e passaram a ver na ciência uma solução melhor. Doenças que antes eram incuráveis passaram a ser facilmente tratadas graças ao desenvolvimento científico que vinha numa crescente desde o século XVII. É assim que a humanidade vai matando Deus; religiosos, ateus, cientistas e homens comuns, todos nós o matamos. A idade moderna representa então, o destronamento de Deus e, como “a grandeza deste feito é demasiada grande para nós”, o homem louco nos provoca: “Não teríamos que nos tornar, nós próprios, deuses, para apenas parecer dignos dela?” – Deixando em aberto a vinda do homem que iria transceder os valores para além do bem e do mal, o além-do-homem.
“Deus está morto” é uma “imagem” nietzschiana do homem moderno que passa a negar os valores cristãos, isto é, retira Deus do trono e coloca no lugar o Homem-racional. Este homem é aquele que despreza o corpo, os instintos, os impulsos e tudo aquilo da qual ele não pode conhecer; ele passa a acreditar que tudo tem um selo de “verdade” ou “mentira”, que algo “é” ou “não é”, além de ser dominado por um pensamento linear que não consegue olhar para os fenômenos e apreendê-los enquanto multiplicidade de relações interagindo das quais ele jamais poderá conhecer em totalidade.
A constatação de que “Deus está morto” não é uma novidade que só surgiu em Nietzsche, a razão já começava a mostrar suas limitações e o cheiro do apodrecimento de Deus já exalava forte. No bojo das transformações, os séculos XIX e XX, trazem desconfiança à razão. Marx e Freud dão força a esse movimento, apontam que aquilo que achamos conhecer não é de autoria do nosso próprio “Eu-Razão”; de um lado, em Marx, há os processos sociais que transformam nosso conhecimento, e em Freud, os processos inconscientes. Ainda, viriam as guerras e a crença da humanidade no progresso proporcionado pela razão e visto enquanto salvação e redenção de todos os problemas seria abalada.
E é aqui que surge o grande pensador Nietzsche, revelando-se quase que um “profeta” de um momento que viria a se instaurar: o contexto atual que uns chamam de pós-modernismo, mas mais importante que o termo, é conseguir ver que nossa época é marcada pelo “nada”. Nem Deus e nem Razão, o Nada e o Vazio são características do pensamento do homem atual.
Pouco nos importamos com o conhecimento enquanto busca de sentido e superação num fazer-desfazer criativo da vida; os problemas existenciais e as angústias dos homens são ocultadas em nome do homem liberal que só tem tempo para o trabalho e o acúmulo de riquezas. Buscamos aquele “conhecimento receituário”, rápido, dos cursos técnicos e operacionais que formam cada vez mais “especialistas” que só conseguem ver o mundo sob a ótica de sua lente e nada mais além disso; de tal forma que os desencontros entre os conhecimentos são gritantes; ao invés de uma multidisciplinaridade de integração dos conhecimentos, presenciamos os marxistas, liberais, psicanalistas, biólogos, historiadores, médicos, advogados, economistas, Deus e o Diabo, que se debatem em defesa de suas “verdades” na ingênua crença de que o conhecimento que eles possuem são o retrato fiel do mundo. Buscamos consolo nas mercadorias de tal forma que nossa felicidade sempre está na vitrine e nunca conosco, somos “isso” ou “aquilo” dependendo do que consumimos.
Esse homem, chamado por Nietzsche de niilista passivo, penso que é a grande contribuição enquanto desdobramento da constatação da morte de Deus. Nietzsche no século XIX anunciou o que estaria por vir. Porém, Nietzsche também vê nesse momento, onde o “nada” diante da vida surge como sintoma do homem contemporâneo, potencialidades para superação, para transvaloração dos valores de sua época. Aponta-nos o cristianismo como exemplo: o cristianismo mudou radicalmente a concepção de mundo e homem, transformou os valores até então vigentes e, quem acreditou que uma religião clandestina, surgida da miséria de alguns não iria se alastrar por todo ocidente, e ainda, influenciando boa parte do oriente, acabou se enganando. Mas isso demorou séculos, de tal forma que não devemos nos render diante da vida, no sentimento pessimista ou niilista que nos convida para adotar uma postura passiva diante de um contexto que parece esgotar todas as forças.
Para Nietzsche, são em momentos de grandes inquietações e questionamentos que podem surgir condições para que o homem resgate o seu Ser. Resta-nos saber se esse homem, que transformará os valores até então vigentes de sua época, irá criar valores para viver a vida sem ser escravo de si mesmo, isto é, aquele homem que deixa de viver somente em função de uma idéia de julgamento criada por ele mesmo, ou se os novos valores irão “quebrá-lo” novamente.
O homem louco sabia que os homens da sua época não estavam preparados para se tornarem órfãos, de tal forma que as massas riam de suas idéias. Esse viés também está presente em Zaratustra, o profeta persa e o próprio Nietzsche sabiam que suas idéias eram para homens póstumos: aqueles que conseguissem se libertar dos preconceitos e dos pesos de sua época, tornando-se espíritos livres capazes de experimentar diferentes perspectivas para além do pensamento racional linear, do platonismo, do socratismo, da metafísica e da moral que se coloca acima da vida.
Os desdobramentos da morte de Deus em Nietzsche fogem às pretensões desse artigo, encontrando sustentação não só nas conseqüências niilistas, como também, na superação à partir da compreensão da vida enquanto vontade de potência e seus enlaces com o eterno retorno. No entanto, por ora, foi a intenção mostrar o quanto a frase “Deus está morto!” é tão mal compreendida.
Uma má compreensão tipicamente do homem pós-moderno que não tem tempo para o que não flui rapidamente. Assim, folhear um livro que não for uma leitura fácil, rápida e que lhe prometa sucesso e felicidade está fora de seu interesse.
Para o “conhecimento” ele apenas reserva um olhar que passa entre frases ou trechos fora do contexto e acredita que compreendeu quem era, quem foi, e o que pensou o autor. – De tal forma, essa compreensão compreende apenas a própria ignorância que olha para o passado com os olhos do presente pedindo suplício no futuro.
Referencia: http://www.eternoretorno.com/2008/08/16/nao-foi-nietzsche-que-matou-mas-deus-esta-morto/
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12 de ago. de 2010

UM TEXTO MUITO ESCLARECEDOR SOBRE A ERA MERCADOLOGICA DO ENSINO PÚBLICO!

Para que servem as Humanidades?

Leyla Perrone-Moisés
Professora emérita da Faculdade da FFLCH/USP

(Matéria publicada na Folha de São Paulo (Caderno Mais!) de 30/6/2002)

Para além das causas específicas, reais ou alegadas, a crise atual da FFLCH/USP é sintoma de um mal-estar internacional dos estudos humanísticos. Uso aqui a palavra ‘humanidades’ não no sentido restrito de estudo das línguas e literaturas clássicas, mas no sentido geral dos estudos que têm o homem como objeto central de reflexão.
Desde a Idade Média até meados do século 20, os estudos humanísticos, sobretudo nas suas vertentes filosóficas e literárias, ocuparam um lugar de honra nas Universidades. O próprio conceito de Universidade implicava a aspiração a um conhecimento superior e integrativo que orientasse os caminhos dos homens. Os extraordinários avanços científicos e tecnológicos do século passado, recebidos não apenas como valiosos, mas também como prioritários, relegaram os estudos humanísticos a um lugar secundário. A globalização econômica e a consequente submissão de todos os países à lógica do mercado tendem agora a desferir o golpe definitivo contra esse tipo de estudo. Os tomadores de decisões - políticos, economistas, cientistas, tecnocratas - perguntam cada vez mais: para que servem as humanidades? Submetidas ao critério de uma utilidade imediata, identificada com um bem-estar do homem baseado apenas no acesso às conquistas da ciência e da tecnologia, assim como no bom funcionamento do mercado, as humanidades passaram a ser vistas como um luxo, uma perfumaria, uma inutilidade.
Concomitantemente, o enfraquecimento dos Estados e sua crescente racionalização econômica levaram a um questionamento do ensino público. A Universidade pública, como todos os serviços fornecidos gratuitamente pelo Estado, começou a ser vista como economicamente inviável. À semelhança das Universidades privadas, as Universidades públicas passaram a ser pensadas como empresas e submetidas a uma avaliação de custo-benefício. Tendo sempre em vista essa lógica de custo-benefício e considerando a crescente falta de recursos públicos para manter as Universidades gratuitas, os dirigentes universitários dos países que ainda mantêm esse ‘anacronismo’ viram, como solução transitória, as parcerias com as empresas privadas.
As Universidades privadas norte-americanas, pioneiras nesse processo e modelos mundiais, adaptaram-se naturalmente ao modelo empresarial. Os currículos e diplomas se adequaram às ‘demandas da sociedade’, que se identificam com as demandas do mercado. Os professores universitários passaram a ser avaliados mais por sua capacidade de levantar fundos (‘raising funds’) do que por suas qualidades de pesquisadores e professores. O modelo liberal-protecionista anterior, sustentado por doações de milionários beneméritos, foi substituído pelo modelo da parceria empresarial interessada, cobradora e interventora. Hoje os logotipos das empresas doadoras de fundos proliferam nos prédios universitários e nas próprias salas de aula.
A indústria farmacêutica, por exemplo, passou a dirigir os rumos das pesquisas de biologia e a influir na composição dos colegiados, como ocorreu, de modo escandaloso, numa parceria da Universidade da Califórnia, em Berkeley, com a empresa suíça Novartis, em 98. A empresa Nike suspendeu seu apoio financeiro às Universidades de Michigan, Oregon e à Brown porque os estudantes desses estabelecimentos criticaram o trabalho infantil praticado pela empresa em países pobres.Os exemplos poderiam multiplicar-se, e numerosos processos foram instaurados para examinar conflitos de interesse na atuação de pesquisadores universitários pagos por empresas.
O próprio ensino como um todo, na era da informática e da internet, tornou-se o alvo das empresas de softwares, os quais substituiriam, com vantagens econômicas, a multidão onerosa de professores e as dispendiosas salas de aula. Programas e aulas uniformizadas, além de representarem uma economia de recursos, favoreceriam a globalização econômica, pelo fato de diplomarem profissionais de formação igual em qualquer parte do mundo. Essas distorções foram denunciadas por universitários americanos, como James Engell e Anthony Dangerfield, da Universidade Harvard, que cunharam a expressão ‘the market-model university’. Apesar desses alertas, as parcerias com as empresas privadas vêm sendo adotadas no mundo todo como uma transição prudente e pudica para a desejada mas ainda indefensável privatização total do ensino e da pesquisa.
A tendência é mundial. A União Européia, ciosa de sua posição no mercado global, vem adotando diretrizes comuns de racionalização do ensino que convergem todas para a profissionalização, o encurtamento dos anos de estudo e a eliminação de diplomas ‘inúteis’. A França, que se orgulhava outrora de ser a ‘mãe das letras e das artes’, agora só pensa em eficiência e performance. Um relatório sobre a Universidade, redigido por uma comissão a pedido do ex-governo socialista, fixava como uma das principais ‘missões’ do ensino superior ‘adaptar-se às profissões do futuro e ao espírito de empresa’ (ver ‘Pour un Modèle Européen d’Enseignement Supérieur’, Paris, Stock, 98).
As primeiras consequências dessa orientação apareceram, em 2000, num projeto do Ministério da Educação que restringia brutalmente o ensino das letras, considerado elitista e supérfluo na Europa moderna. Houve reações de protesto (publiquei a esse respeito um artigo, ‘Em Defesa da Literatura’, no Mais! de 18/6/2000). Atualmente, com o avanço dos partidos de direita em toda a Europa e o eclipse da esperançosa ‘exceção francesa’, todos aqueles protestos parecem antiquados e vãos.
Evidencia-se, cada vez mais, que as desejadas parcerias são facilmente obtidas quando as empresas obtêm um retorno em forma de lucro, isto é, nas áreas científicas, tecnológicas ou diretamente econômicas e gerenciais. As humanidades, logicamente, oferecem poucos atrativos para a iniciativa privada. Na ponta do lápis, as humanidades não são rentáveis. Os sinais desse desinteresse progressivo pelas humanidades já vêm de longe. Ainda nos anos 70, um empresário bem-intencionado, que integrava então o Conselho Universitário da USP, perguntou-me: diga-me francamente, para que servem disciplinas como ‘sânscrito’ ou ‘estudos camonianos’? Ele considerava essas ‘extravagâncias’ como ônus nocivos ao bom funcionamento da Universidade. O verbo ‘servir’ ganhava já um sentido exclusivamente pragmático.
A própria história da USP espelha essa tendência mundial. Quando foi criada a Faculdade de Filosofia, em 1934, ela foi pensada como a ‘celula mater’ da Universidade. Diferentemente das faculdades profissionalizantes já existentes, ela se voltaria para os estudos humanísticos e científicos ‘puros’, para o conhecimento desinteressado, e promoveria a integração entre os diversos saberes, sem a qual não existe ‘Universidade’. O decreto de fundação da USP, assinado por Armando de Salles Oliveira, partia da afirmação de que ‘a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo’ e apontava, como um dos fins da Universidade, ‘transmitir, pelo ensino, conhecimentos que enriqueçam ou desenvolvam o espírito ou sejam úteis à vida’. Todas essas afirmações soam, hoje, como idealistas e utópicas. Fala-se agora, brutalmente, do ‘triste fim do mito da USP’, que seria visível no colapso iminente da sua ‘ex-celula mater’.
Se lembro aqui as origens da FFLCH não é por saudosismo ou apego à tradição. É para que, à maneira reflexiva que a caracteriza, reexaminemos a sua história e pensemos o seu presente. A aliança entre o ensino profissionalizante, a pesquisa aplicada e a pesquisa pura, idealizada pelos fundadores da USP, evoluiu para o conflito, em prejuízo da última. Um artigo de Marilena Chauí, numa publicação comemorativa dos 60 anos da USP (‘Estudos Avançados’, nº 22, set-dez/94), mostrava, a partir de documentos programáticos datados de 67 a 94, as mudanças ocorridas na concepção da Universidade por parte de seus integrantes. Os ‘novos engenheiros da mudança universitária’, dizia Chauí, alegam que, ‘à medida que o modelo de produção capitalista transformou a C&T em forças produtivas, não só tornou obsoletos os antigos humanistas e pesquisadores puros, como ainda exige adequação da Universidade à nova realidade histórica, se esta não quiser perder-se em abstrações’.
Além de serem inúteis, os estudos humanísticos revelaram-se, ao longo do tempo, incômodos para os governantes e tecnocratas, por exercerem e estimularem o espírito crítico. Com sua mania de ‘perder-se em abstrações’, a FFLCH foi se tornando uma unidade problemática. Durante a ditadura militar, ela foi a mais vigiada, a mais punida com aposentadorias compulsórias de professores, com a perseguição de alunos e finalmente com a invasão e a depredação dos seus locais. Nos primórdios da era mercadológica, seus professores foram tachados de ‘improdutivos’. As repreensões que ela recebe agora, por parte de um vice-reitor economista, decorrem da mesma má vontade para com essa faculdade incômoda: falta de planejamento, irresponsabilidade administrativa.
Para agravar a situação atual, alguns docentes da própria FFLCH tendem a procurar um bode expiatório dentro dela mesma, por exemplo, nos cursos de letras, que por seu gigantismo atrapalhariam o bom funcionamento do conjunto. Sobrepondo critérios gestionais e paroquiais a critérios acadêmicos, esses docentes desejam a separação das áreas. Em vez de buscar uma melhor integração dos departamentos - e a prática de uma real interdisciplinaridade que, pela afinidade de seus objetos de estudo, seria proveitosa a todos -, optar-se-ia pela atomização da faculdade. Ora, essa atomização, além do prejuízo acadêmico, traria, a curto termo, um enfraquecimento político ainda maior de cada um dos departamentos de humanas no conjunto da Universidade. Os cursos de letras, diga-se de passagem, são os que proporcionam mais empregos para os seus diplomados e os que mais atendem, pelo ensino de línguas e literaturas, às necessidades atuais de compreensão das culturas, útil até mesmo para o bom desempenho das empresas multi e transnacionais.
A crise hoje vivida pela FFLCH, causada, como se sabe, pela falta de professores e de salas de aula, pode ter um efeito salutar. Em primeiro lugar, ela evidencia que a procura por esses cursos, apesar de seu desprestígio, é enorme. Essa unidade acolhe 20% do total de alunos da USP. Além disso, a crise põe a nu o mal-estar essencial dos estudos humanísticos na era da globalização econômica. Convém, então, responder à insistente pergunta: para que servem esses estudos?
Servem para que a Universidade continue a ser, além de um local de pesquisas científicas e tecnológicas, um lugar onde se exerce também o pensamento crítico, sem o qual esses avanços procederiam às cegas. Sem a compreensão da história dos homens, de seu habitat natural e social, de suas línguas, culturas e religiões, as conquistas científicas e tecnológicas são utilizadas ou inviabilizadas num mundo guerreiro e repartido de forma injusta. As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade da existência humana, para além do simples alongamento de sua duração ou do bem-estar baseado no consumo e nas metas do FMI. Servem para estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma.
Num mundo informatizado, eles servem para preservar, de forma articulada, o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no imediatismo da mídia e das redes. Por outras palavras: em tempos de informação excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento. Eles servem para ‘agregar valor’, como se diz no jargão mercadológico. No ensino superior, os cursos de humanidades são um espaço de pensamento livre, de busca desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a própria idéia de Universidade perde sentido. Por isso eles merecem o apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles estudam e à qual servem.
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