4 de set. de 2011

Mensagem de alerta para a presidenta

Li essa mensagem, e no começo não gostei muito por não concordar as  ideias nela lançadas. Mas ao terminar, ela me fez refletir bastante, não somente porque a autoridade que escreve tem cabarito para tal, mas porque, de fato, suas palavras soaram-me como um grito...

Um grito de socorro!

Agora é a vez de vocês, aguardo os comentários.


____________________________________


Por Paulo Ricardo da Rocha Paiva - de Boa Vista 
                                                                                                                                                 http://correiodobrasil.com.br/wp-content/uploads/2011/09/porta-avioesMG-300x169.jpgO aeródromo Minas Gerais foi uma das poucas aquisições para a máquina de guerra do Brasil



Muitos se lembram, 1957, o Brasil negociava um aeródromo, o antigo Vengeance veterano de batalhas da Royal Navy que se chamou de Minas Gerais. Na época, em um contexto de ameaças bem menos clamante, o comediante Juca Chaves ironizava em canção desafinada, patética mesmo:  “O Brasil já vai à guerra, comprou porta-aviões”. Deve ser dito, naquela década existia aqui quase que exclusivamente uma indústria leve de consumo, dedicada à produção de bem perecíveis e semiduráveis.

Eis que, passados sessenta anos, já fabricamos petroleiros com tecnologia náutica de alto nível e de tonelagem superior ao do Velho Minas. De repente um gigante adormecido se alça como a oitava economia do mundo, as ameaças ganham contornos imprevisíveis e as fontes de seus inesgotáveis recursos naturais são proclamadas como “patrimônio da humanidade”. A surpresa é tamanha e ele surpreendido fica atônito, perdido tal qual deputado sem ficha limpa que hoje quer se reeleger. Sem comando, se mantém hoje, guardadas as devidas proporções, a mesma fragilidade que tínha nos anos “50”. Simplesmente a potencialização de recursos soberbos avançou muito em relação ao grau de segurança que, ainda indisponível, se impõe para sua garantia.

Lula, fraco mas abusado, interagia como alguns que o precederam, muito emproado, se os poderosos colocavam as mangas de fora postulando seu quinhão amazonense, Luis Inácio estufava o peito e dizia: -“O Brasil precisa mostrar os dentes por causa da Amazônia e da reserva do pré-sal”. Para ele comprar material bélico no exterior era como que arreganhar a dentadura. Haja paciência, que tamanha ingenuidade! Se a “Santa Aliança do CS/ONU” mostrar o relho nossos cariados vão cair de podres!


Nosso “precavido” Luis Inácio ainda dizia que “quanto mais preparados estivessem os militares brasileiros, menor seria o risco de uma guerra”. Mas eles vão se preparar como, com que armas? Presidenta Dilma, valha-me Deus! ! Os porta-aviões da 4ª Frota/USA têm muito mais caças do que se quer comprar para a FAB, isto sem falar nos três ou quatro submarinos nucleares daquela força tarefa que, além da propulsão, são dotados de mísseis, convencionais e atômicos, que podem ser lançados mesmo na situação de nave submersa. A conclusão a que se chega é que governantes, políticos, mas também a sociedade não está nem aí. Com a palavra a nova comandante em chefe de nossas Forças Armadas!

Cidadão brasileiro, povo deste imenso País indefeso, é preciso aceitar a realidade. As palavras foram ditas, sim, por um civil de envergadura sem par, é Rui Barbosa quem vaticina -“Uma nação que confia em seus direitos em vez de confiar em seus soldados engana-se a si mesma e prepara a sua própria queda”. Presidenta! Nossos guerreiros com medidas paliativas não se sustentam. Eles carecem de poder definitivo não para fazer guerras, que isso fique bem entendido, mas, para o inimigo desistir da luta. Iraque, Afeganistão, Líbia, os exemplos estão aí, quando os cães de guerra resolvem intervir, “para proteção da população civil”, não há quem os segure! Que não se duvide, seus “bombardeios cirúrgicos” já mataram no Oriente Médio muito mais mulheres e crianças do que qualquer sultão mal intencionado. Alerta! Nossos “kosovos indígenas” já estão mostrando as unhas!


E quanto à potência mambembe herdada por Dilma? Sim, aquela que quer porque quer um acento permanente no “Conselho de Segurança”, com direito a veto nas mesmas condições dos “senhores da guerra”. Ah! A ONU, com certeza, vai apontar o “mapa do caminho” para o seu postulado… . Acredite quem quiser.



Paulo Ricardo da Rocha Paiva é coronel de Infantaria e Estado-Maior, doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.


Fonte:               

CORREIO DO BRASIL < http://correiodobrasil.com.br/mensagem-de-alerta-para-a-presidenta/292311/  >  Acessado em: 04-09-2011.
Continue Lendo ››

18 de ago. de 2011

Artigo: CONCEITUANDO A ANTROPOLOGIA. Por: Ronaldo A Lidório

Encontrei esse artigo na revista ANTROPOS – Revista de Antropologia – e achei muito interessante, então resolvi compartilhar com vocês. Abaixo segue a refererência.
 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDFagKVZQBnMrq5nQGFVzt1EQoqZ-UECdpi-b8qrtX48AC0ivAjtcw36X8IXjANqWQQxPtNNbnRA5tAGzffnUSlpQebgqt3sxrEfqsBiXaW8oT1x-CfsWnRuoJtP80oYk42zVWI3d1v-q-/s1600/artigos.jpg
O objetivo deste artigo é introduzirmos  antropologia como ciência social, a partir dos seus próprios conceitos, assim como os da cultura e do homem, constituindo  -  estes três (a antropologia, a cultura e o homem)  - os focos principais. 

O que temos praticamente aqui são três níveis de estudo onde  antropologia se vê como um círculo de conhecimento acadêmico cuja abrangência seria mais vasta e englobaria a conceituação de cultura e sucessivamente do homem, pois este é a célula menor dentro da composição de todos os demais segmentos culturais. Acreditamos portanto que, de maneira bem prática, se conceituarmos Antropologia, Cultura e Homem teremos uma boa base acadêmica sobre tal assunto como ciência. 

Teorias antropológicas 

 No século XIX surge o evolucionismo unilinear, que aplica a teoria da  evolução na culturalidade e gera o pressuposto que o homem passaria por estágios de evolução cultural: da selvageria à barbárie, da barbárie à civilização e da civilização ao estado de perfeição relativa. Tais estudos se basearam na observação de culturas ultramarinas, a partir do gabinete e não do campo, de forma distante e pouco aprofundada. São estudos etnocêntricos e comparativos, relegando às etnias minoritárias diferentes graus de primitivismo tendo a cultura européia como ponto de referência do processo civilizatório. É, dessa forma, uma teoria idealista, tendo como ideal o europeu, sua sociedade e tecnologia. Esta teoria criou a plataforma filosófica para o domínio europeu no novo mundo e foi desenvolvida dentro do cenário dos escritos e pensamento de Spencer (princípios da biologia, 1864) e Tylor (A cultura primitiva, 1871) dentre outros. A publicação de Regras do Método Sociológico, de 1895, propõe que os fatos sociais eram mais complexos do que se imaginaria a princípio. Com Durkheim os fenômenos sociais começam a ser definidos como objetos de investigação socio-antropológica. Juntamente com Mauss, Durkheim1 (no final do século XIX) se debruça nas representações primitivas, estudo que culminará na obra Algumas formas primitivas de classificação, publicada em 1901. Com isto se vê inaugurada a chamada linhagem francesa no estudo da antropologia.  Franz Boas , nos Estados Unidos da América, desenvolve a idéia de que cada cultura tem uma história particular e, portanto a difusão de traços culturais deveria acontecer com freqüência e abrangência. Nasce o Relativismo cultural tendo início a investigação de campo, saindo dos gabinetes e cenários puramente teóricos. Boas defende que cada cultura deve ser definida pela sua própria história particular, portanto torna-se necessário estudá-las separadamente com o objetivo de construir sua história. Surgia o Culturalismo, também conhecido como  Particularismo Histórico.  Deste movimento nasceria posteriormente a escola antropológica da Cultura e Personalidade. O particularismo histórico questionou o evolucionismo unilinear propondo que cada cultura possui sua historicidade que demanda respeito. São atacadas as comparações idealistas culturais. Advoga também o que seria o protótipo da observação participativa na  qual o pesquisador interage com o povo alvo. Desenvolveu o método indutivo (do particular para o geral) contrapondo a antropologia clássica da época, generalista.  A Antropologia Estrutural nasce na década de 1940. Lévi-Strauss é o seu grande teórico e defende que existem regras estruturantes das culturas na mente humana. Desta forma estas regras constroem pares de oposição para organizar o sentindo. Ele recorre a duas fontes principais: a corrente psicológica criada por Wundt e o trabalho realizado no campo da lingüística, por Saussure, denominado Estruturalismo. Foi também influenciado por Durkheim, Jakobson com a teoria lingüística, Kant com o idealismo e Mauss. O Estruturalismo dá um grande impulso a lingüística de forma geral ao defender que é necessário compreender o padrão mental, de pensamento e comunicação de um povo, a fim de compreender a sua cultura. Nesta época métodos fonológicos passam a ser aplicados para estudos culturais. A finalidade maior é encontrar o que foi chamado de pensamento coletivo pois este aglutinaria impressões e valores de um povo. Valoriza-se o registro (e interpretação) de lendas e mitos. O Funcionalismo vem se contrapor às teorias da época e propõe a compreensão (e estudo) da cultura a partir de um ciclo de valores que estão interligados. Ou seja, todos os aspectos que definem uma sociedade (língua, atividades de subsistência etc) fazem parte de um todo que pode ser entendido como cultura. Desta forma vemos o nascimento da distinção entre etnografia e etnologia, pressupondo a necessidade de não apenas dissertar as atividades humanas em determinado segmento social mas também compreender a identidade do grupo. Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard desenvolveram esta teoria propondo uma nova ramificação que é o Funcionalismo estrutural. Defenderam que a estrutura social é o ponto central em uma sociedade e todas as atividades e fatos sociais (valores, religião, organização familiar etc) são desenvolvidos com a finalidade de manter a estrutura social estável. O desequilíbrio desta  estrutura social faz com que a sociedade desenvolva outros mecanismos, valores ou atividades que venham a reequilibrá-lo.  O Neo-evolucionismo define que a evolução cultural se dará, basicamente, através da luta do homem contra a natureza, e o domínio deste sobre aquele em relação à subsistência, segurança e bem estar. Steward defendia, porém, que as mudanças ambientais foram as principais causadoras das mudanças culturais e prevê que as grandes possíveis mudanças ambientais puderam resultar em mudanças gerais na humanidade. Assim defende ser  necessário, ao homem, permanecer com seu instinto de adaptação ao ambiente, o que proverá segurança e sobrevivência.  Na segunda metade do século 20 Clifford Geertz, após Lévi-Strauss, provavelmente foi o antropólogo cujas idéias mais causaram impacto na sociedade. É considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea, a chamada Antropologia hermenêutica ou interpretativa. As teorias simbólicas e hermenêuticas apresentam duas classes antropológicas. A primeira, simbólica, defende a identificação do significado cultural a partir da observação e analise de ritos, mitos, cosmogonias e assim por diante. A segunda, hermenêutica, defende a interpretação destes fatos sociais. A pergunta, para estes, é sempre, "qual a idéia por trás do fato social?" 
 
Conceituando Antropologia 

Nosso primeiro passo rumo ao triplo enfoque citado é conceituarmos, mesmo que de forma breve, a antropologia. Esta ciência foi formada a partir de diversas origens, estudos e fundamentos, documentados numa história de evoluções de idéias que levaram aos aspectos conclusivos de hoje. Laraia nos fala sobre a diversidade de pensadores que proveram os elementos necessários à ciência antropológica como Confúcio ao afirmar que “a natureza dos homens é a mesma, são seus hábitos que os mantém separados”. A partir desta idéia fundamental da antropologia muitos levantaram uma pergunta iniciadora no assunto: porque homens semelhantes em contextos semelhantes geram culturas tão distintas?  Franz Boas descreve as narrativas de Heródoto (484-424 a.C) aos gregos, a respeito do que havia visto em diferentes terras citando, em uma de suas observações, que os Lícios possuíam “um costume único pelo qual diferem de todas as outras nações. Tomam o nome da mãe e não do pai.” Este tipo de constatação veio a formar a categoria hoje conhecida como estrutura de parentesco matrilinear.  José de Anchieta (1534-1597) observou a estrutura de parentesco patrilinear entre os Tupinambás escrevendo que “porque têm para si que o parentesco verdadeiro vem pela parte dos pais, que são agentes; e que as mães não são mais que uns sacos, em respeito aos dos pais, em que se criam as crianças, e por esta causa os filhos dos pais, posto que sejam havidos de escravas e contrárias cativas, são sempre livres e tão estimados como os outros”. Geertz discorre sobre diversos outros pesquisadores que contribuíram com esboços daquilo que formaria o atual pensamento antropológico como Khaldun, no século XIV, que elaborou a tese de que os habitantes de terras quentes são mais passionais que os de climas frios . Ou ainda Locke que pesquisou o conceito das idéias a partir das distinções geográficas. No século XVIII Rousseau, Schiller e Herder tentaram construir um esboço da história da humanidade a partir dos relatos de diversas viagens, de Marco Polo a Cook.  Todos estes exemplos demonstram métodos antropológicos de observação e interpretação das raízes e valores culturais em diferentes contextos humanos. Portanto, Antropologia poderia  ser introdutoriamente conceituada como “o resultado da aglutinação histórica de impressões, fatos e idéias sobre a identidade do homem disperso em seus diferentes ajuntamentos sociais”. A ideologia antropológica, entretanto, sofreria forte impacto acadêmico do evolucionismo de Darwin (denominado na época de método comparativo), representado principalmente por Tylor. A principal oposição é encontrada exatamente nas claras idéias de Franz Boas (1858-1949). Este método comparativo defendia que o homem é o resultado do seu ambiente. Para melhor entendermos tomemos como exemplo o povo Ewe no centro de Gana, África ocidental. Sua língua utilizou quatro vocábulos diferentes para designar o conceito de rio, porque habitam numa área fluvial que depende de uma compreensão melhor da evolução desta idéia, enquanto os Konkombas, que não transitam nos rios mas partilham o mesmo território, utilizam apenas um vocábulo para conceituar rio. Assim, segundo esta teoria, o ambiente define a cultura e define o homem levando-o a desenvolver língua, hábitos e formas de agrupamento a partir do contexto.  Boas interfere e nos propõe que a cultura humana não é apenas o resultado do ambiente mas sim o resultado das idéias. Revolucionando a Antropologia da época, Boas fez escola ao mesmo tempo em que chamou a atenção para uma dualidade que tem como primeiro elemento o reconhecimento do que o ambiente pode produzir no indivíduo. Desta forma o ambiente seria de fato determinante em alguns aspectos da formação cultural do indivíduo. Tomemos, como exemplo, um bebê recém nascido, com três meses de idade, tendo nascido em uma família Tukano do Alto Rio Negro. Por algum motivo esta criança é levada para ser criada por uma família Italiana de Milão. Aos 15 anos de idade este adolescente, senão pelo aspecto físico, será um puro Italiano lingüística e culturalmente. Enfrentaria todas as limitações como qualquer Italiano se necessário fosse se aculturar no universo Tukano, aprender sua língua, entender sua cosmovisão, adaptar-se ao clima, organização social e tudo o mais. A determinação do ambiente de fato é relevante e prioritária na formação direta do indivíduo em termos de identidade étnica e cultural. Mas Boas acrescenta um segundo elemento, para compor sua dualidade. Apesar do determinismo geográfico ter seu fundamento bem embasado, há elementos que constroem a cultura em um determinado grupo que independe de sua regionalidade. A comprovação mais conclusiva, observada por Boas, foi o desenvolvimento dos Esquimós (Inuit) em uma mesma região dividida politicamente entre o Canadá e os Estados Unidos das Américas. As escolhas culturais do agrupamento foram extremamente distintas gerando grupos também distintos apesar de compartilharem a mesma história, região e ancestralidade. Falam hoje dialetos distintos e possuem costumes paradoxais mesmo vivendo tão próximos. Portanto a cultura é um elemento muito mais dinâmico do que se poderia esperar, e desta forma mais complexo ao ser analisado de forma linear. A Antropologia, inicialmente, era tratada apenas como uma área de estudo dentro da História e da Filosofia. Com o descobrimento das complexidades culturais a humanidade viu-se diante  da gritante necessidade de uma área específica e subdividida a ponto de cobrir algumas fontes de perguntas sociais. Surgiu o Estudo do homem.  Um dos fatos que despertou atenções ao redor do mundo no século XVI foi a inconcebível possibilidade de que fatos análogos possam estar desassociados em sua origem. Com as viagens e descobertas de novos mundos e povos os relatos rapidamente chegaram à Europa conduzindo uma série de questionamentos a respeito de respostas que antes eram tidas como certas. Percebeu-se, por exemplo, que o garfo foi usado primeiramente em Fiji e tempos depois inventado na Europa sem que houvesse entre estes lugares qualquer transmissão de conhecimento. Os tesouros artísticos que chegavam do chamado novo mundo ocidental possuíam tremenda semelhança com os relatados por Marco Polo no mundo oriental. O golpe final foi dado através dos relatos de grupos  isolados por gerações na Polinésia os quais, desenvolveram artifícios de bronze e arpões de pesca quase idênticos aos utilizados na Roma de dois milênios atrás sem que houvesse possibilidade de transmissão histórica de conhecimento. É claro, portanto, a conclusão de que necessidades comuns geram invenções e respostas análogas. Tornou-se necessária a existência de uma área específica para o estudo do homem, suas interações sociais, herança histórica e identidade comunitária. Surgia a Antropologia que mais tarde viria a se desmembrar em Aplicada, Cultural, Etnologia, Fenomenologia e diversas outras estruturas de pesquisa e conhecimento do desenvolvimento humano em seu contexto social.   

Conceituando Cultura 

  Vivíamos, no século XVIII, a era do determinismo geográfico onde toda diferença cultural e lingüística era considerada a partir das diferenças regionais. A atenção na incipiente etnologia da época passou a se concentrar nos ambientes onde “clima, condições de subsistência, alimento, acesso à água potável,  qualidade do ar e distanciamento de outros ajuntamentos humanos determinam em larga escala a identidade de uma pessoa e seu grupo”. Era uma visão parcial da identidade humana que viria a receber novos questionamentos.  Em face desta crescente influência cultural analítica, no fim do século XVIII e início do XIX era ampla a utilização do termo kultur ao se referir ao bojo de valores espirituais em um povo ou nação. Paralelamente civilization era um termo francês que transmitia a idéia do desenvolvimento estrutural de uma nação. Edward Tylor (1832-1917) sintetizou as duas expressões na nomenclatura inglesa culture a partir da qual várias escolas foram fundadas e pensamentos se distinguiram no estudo e pesquisa das distinções e semelhançasdo homem em seus diversos segmentos. Inicialmente se conceituou cultura como “todo comportamento aprendido, assimilado, avaliado e sujeito a progressos; tudo aquilo que independe de uma transmissão genética”.  Jacques Turgot, Jean-Jacques Rousseau e John Locke, nesta  trilha, defenderam a transmissão do conhecimento como fator responsável pela cultura e desembocaram na idéia  da educação como agente responsável pela formação do homem em sua totalidade afirmando até mesmo que os grandes macacos, através de uma educação sistemática e processual, poderiam se desenvolver em humanos.  A partir de 1920 antropólogos como Boas, Wissler e Kroeber passaram a desenvolver um estudo antropológico a partir da análise das idéias e não dos ambientes. Vieram a questionar o determinismo geográfico a partir da observação de que grupos historicamente habitantes do mesmo território se desenvolviam culturalmente de forma distinta.  Silverwood-Cope traça uma linha analítica dos povos do Alto Rio Negro onde as diferenças culturais mais gritantes eram encontradas entre as etnias com grave aproximação geográfica como os Pira-Tapuya, Tariano e Hupdah os quais, compartilhando o mesmo ambiente, diferiam entre si em categorias básicas como pescadores, plantadores e coletores, sucessivamente. Konkombas e Bassaris, no nordeste de Gana, África, possuem 1.200 anos de convivência e partilha ambiental, mas observamos os principais traços culturais de parentesco divergirem rigorosamente. Os primeiros são endogâmicos (casam-se somente entre si) enquanto o segundo grupo pratica a exogamia (casam-se exclusivamente com pessoas de fora de seu circuito cultural) como valor chave para sua interação sociocultural.  A partir de uma observação mais exata a idéia da existência do homem e seu agrupamento como uma entidade puramente receptiva e susceptível ao ambiente foi refutada. Passou-se a mergulhar nas idéias, possíveis geradoras de valores e costumes.  De forma geral, portanto, poderíamos citar Paul Hiebert e conceituar cultura como “os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valores e seus padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados por um grupo de pessoas que organiza e regulamenta o que pensa, sente e faz”.  

Conceituando o Homem 

A sociologia não vê o homem sozinho como homem, por definir este como um ser estritamente social. A psicologia vê o homem como um ser autoconsciente enquanto a filosofia o define como um ser moral e racional como defendia Hegel. Para a teologia, o fato de ser espiritual o distingue de toda a criação.  Até aqui temos visto uma antropologia mais culturalista, mais estruturalista, na consideração de que uma cultura seria um agrupamento ou um segmento social que se desenvolve a partir das idéias e influencia o homem. Não seria, portanto, o meio geográfico que determinaria a cultura, porém a dinâmica da cultura influenciaria o ser humano que estaria dentro dela, sendo o homem a célula menor.  Perante tal pressuposto surgiu, porém, um problema axiomático a ser debatido na antropologia. Estudiosos começaram a perceber que, perante culturas profundamente definidas em alguns aspectos (modo de vida, valores, prioridades, etc) não raramente surgiam  indivíduos que, drástica e surpreendentemente, geravam mudanças profundas na base dos conceitos e vida. Ou seja, passou-se a perceber que o homem é um agente transformador da cultura. Assim, o segredo para entendermos a dinâmica cultural seria entendermos o homem, o indivíduo, este ser destituído de muito valor na visão estruturalista.  Pensando sobre o agente humano e suas múltiplas interações, Kroeber ajuda-nos a distinguir o orgânico do cultural. Segundo ele o homem está inserido na mecânica da natureza de forma igual pois, organicamente, possui necessidades igualitárias a serem satisfeitas tais como o sono, alimentação, proteção, sexualidade e etc. Porém, a forma de suprir estas necessidades difere, certamente, de agrupamento para agrupamento, de segmento social para segmento social. E isto seria cultura. Se um indígena, membro de uma cultura tolerante ao infanticídio, ou mesmo fomentadora do mesmo, um dia decidir não mais participar, e até mesmo se opor a tal prática, movido por pura volição e escolha, ua história bem como de seu grupo poderá ser perpetuamente alterada desde então.  Portanto, o homem, apesar de ser a célula menor no conceito antropológico geral e cultural, também é o agente transformador. Desta forma pode-se diferir o homem dos demais agentes da natureza, em termos culturais por “sua capacidade de transmitir sua história à geração vindoura, avaliá-la de acordo com seus atuais princípios e desejos, e recriá-la à luz de suas expectativas”.  Franz Boas, estudando as diferenças culturais entre os Esquimós (Inuit) no Canadá (1883) percebeu que as idéias de nobreza, miséria, dignidade, pecado e relacionamento, “residem na construção do coração, em que eu encontro, ou não, tanto aqui quanto entre nós”. Portanto, passou a conceituar o homem como “um agente transmissor de idéias, fonte inerente de conceitos herdados pela humanidade que se distingue em suas aplicações na vida e grupo”.  Desta forma a fonte da diversidade cultural passou a ser o homem e seu pensamento, não o ambiente e imposições geográficas. Entretanto falta aqui o estudo e percepção dos elementos geradores de idéias no indivíduo. O que veio mais tarde a ser tratado na fenomenologia religiosa.  Digno de nota seria a discordância entre Tylor e Kroeber em razão da posição do homem entre os outros seres vivos. Enquanto Tylor distinguia o homem a partir da cultura (o único possuidor de cultura e transmissão cultural) Kroeber distinguia o homem dos demais seres vivos apenas pelo poder de comunicação oral mais precisa e capacidade de gerar instrumentos que lhe pudessem ser úteis ao desenvolvimento. Apesar da tentativa de Kroeber em colocar o homem dentro da ordem da natureza, não o distinguindo dos demais seres vivos, não nos fornece munição para entendermos a sua incrível diversidade. Recorremos, portanto, às palavras de Laraia quando diz que  a grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas, dominou os ares; sem guelras ou membranas próprias, conquistou os mares. Tudo isto porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura.  Segundo Geertz, as antigas abordagens definidoras da natureza humana, tanto feitas pelo Iluminismo quanto pela antropologia clássica, são basicamente tipológicas, e  tornavam secundárias as diferenças entre indivíduos e grupos. Agora, através de uma visão cultural vemos que se tornar humano é “tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais... (que) não são gerais, mas específicos”. Portanto poderíamos conceituar homem, para nosso estudo antropológico, como o ser em cultura, que se define a partir da sua história, suas idéias e envolvimento social. Em sua consciência, em sua moralidade e racionalidade, assim como em sua espiritualidade o homem pode aventurar-se num caminhar construtivo em sua própria essência humana através de sua vocação cultural.



Fonte: 
LIDÓRIO, Ronado. CONCEITUANDO A ANTROPOLOGIA. Revista Antropos – Volume 3, Ano 2, Dezembro de 2009 ISSN 1982-1050. Acesso em: 18 de agosto de 2011.
Continue Lendo ››

13 de ago. de 2011

A música da vez: Cidadão, Ze Ramalho.

Oii pessoal, encontrei a análise dessa música entre as minhas navegadas pela net e achei interessante postar aqui, é a atual música que abre com nosso blog.

Confiram:

A música “Cidadão” foi composta na década de 70 pelo poeta baiano Lúcio Barbosa, em homenagem ao seu tio Ulisses.
Ela narra a saga de um eu-lírico que trabalha como pedreiro, mas em razão da sua condição humilde, não pode frequentar nenhuma das obras por ele construídas. A inspiração veio do fato do tio também ser pedreiro, ter construído inúmeras obras na cidade grande, mas não possuir casa própria.
É uma música forte que aborda o preconceito e a discriminação que os nordestinos sofrem nas grandes cidades e faz referência a alguns problemas sociais, tais como moradia, educação e trabalho.
O título “Cidadão” é proposital para demonstrar distanciamento entre os indivíduos privilegiados, em pleno gozo dos direitos civis e políticos, ou no desempenho de seus deveres para com o Estado, e demonstra que a sociedade burguesa pode ser muito cruel, quando não considera as pessoas pobres como “cidadãs”.
Nas duas primeiras estrofes o Eu-lírico cita sempre a presença de um “cidadão” que o proíbe de entrar nos lugares, mas, na verdade, ele próprio não é capaz de enxergar-se como cidadão. Ou seja, em sua cabeça, o “cidadão” que o proíbe está em pleno gozo de seus direitos civis, e a ele, como cidadão excluído, cabe desempenhar os deveres para com o estado.
Sentindo-se excluído, cita outra faceta comum de infortúnio que cerca os desprivilegiados: a falta de lazer e o alcoolismo (“meu domingo está perdido / Dá vontade de beber”).
Ele também faz questão de incluir as pessoas de seu universo social também como seres excluídos (“minha filha inocente, vem pra mim toda contente…”) e mostra o preconceito entre os “Brasis” rico (sul) e pobre (norte) usando os advérbios “lá” e “cá” (Lá a seca castigava… / Aqui não pode estudar…).
Na última estrofe o poeta, como bom nordestino, demonstra toda a fé que deposita no filho de Deus, pois o considera também excluído pela sociedade. Nesta estrofe ele faz questão de não usar o termo “cidadão” para enfatizar que, como ele, Cristo também serviu (“fui em quem criou a terra, enchi os rios, fiz a serra…”) e a maioria dos “cidadãos” também virou-lhe as costas (“e na maioria das casas eu também não posso entrar.

(Sérgio Soeiro)


Fonte: http://analisedeletras.com.br/ze-ramalho/cidadao/
Continue Lendo ››

1 de ago. de 2011

Chegou concurso na area: Agente de Pesquisa e Mapeamento, IBGE.

 http://extra.globo.com/incoming/2205774-bbd-3d5/w640h360-PROP/2009090360396.jpg

Oii pessoal, 

Esse concurso é bem interessante para nós Cientistas Sociais. 

Tanto para quem esta formado, pois é um meio de conseguir experiência como pesquisador (caso tenham escolhido o bacharelado), entendo que, na pratica, nós nem sempre vamos a campo colher dados, muitas vezes somente elaboramos o projeto e analisamos os dados que chegam até nós, mas considero super interessante termos a experiência de ir fazer a pesquisa pessoalmente, pois isso nos deixa mais sensível para entendermos as falhas e também as peculiaridades de todo processo estatístico; por outro lado, se você ainda esta na acadêmia (como eu), a experiência pode nos remeter a tomar a terrível decisão entre a licenciatura e o bacharel, pois trabalhando com a pesquisa, colocando a mão na massa, teremos uma ideia do que realmente é ser um bacharel em ciências sociais, lógico que uma ideia bem específica, pois cada pesquisa é uma pesquisa, mas uma ideia que definitivamente vai te ajudar na tua vida profissional, palavra de quem já foi recenseadora do IBGE, no último Censo Demográfico (2010).

Além de tudo que já falei, tem outro ponto positivo: o contrato é temporário! E isso é positivo porque para nos que estamos na academia é bem difícil se dedicar tempo integral a um trabalho, e por isso, trabalhar no IBGE como Agente de Pesquisa, além de nos proporcionar experiência, nos da a opção de escolher nosso horário de serviço, nos colocando numa situação confortável perante as responsabilidades que temos junto a universidade. E ainda por cima, recebemos uma boa remuneração, cerca de 850,00 reais, que tanto fazem diferença na vida de um estudante.

Bom, não é só flores ser Agente de Pesquisa, isso é verdade. Mas é verdade também que todo e qualquer trabalho, tem seus ocios, não é uma peculiaridade do pesquisador ou do recenciador do IBGE. Mas garanto que não iram se arrepender, pois a maior vantagem, é a experiência.


Infelizmente eu não posso fazer esse concurso, pois já participei do anterior e  só posso ser contratada novamente após 24 meses depois do último contrato. Mas desejo boa sorte a todos! 

E qualquer questão, é só deixar comentários, se eu poder ajudar, será um prazer!





Continue Lendo ››

22 de jul. de 2011

10.000 Visitantes!!!

[10000visitas_024.bmp]


Isso mesmo, 10.000 visitantes!

É a marca que este blog bateu essa semana...

E tudo isso graças a você que esta ai por trás da telinha do pc, ou de um celular..


Obrigada a todos que estão me seguindo, que estão divulgando esse blog, ou que estão simplismente visitando. Fico grata por dedicaram um pouco de atenção as minhas postagens, fico grata também aos que comentam, sempre tão carinhosos.

A presença de vocês aqui me trás um sentimento de satisfação enorme, sinto que todo o trabalho que tenho está sendo recompensado, e/ou reconhecido.

Então é isso pessoal,

E vamos em frente, rumo aos 20.000.

Create your own banner at mybannermaker.com!
Continue Lendo ››

21 de jul. de 2011

SHOW DO MINISTRO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS


Olá pessoinhas...

Esse post de hoje é bem bacana, e merece menção porque como o próprio título já indica, se trata de um brasileiro esculachando (de forma super educada) os americanos. E definitivamente, não é todo dia que isso acontece né? Então confiram até o finalzinho e deixem seus comentários...

Ficheiro:Senador cristovam buarque.jpg
(Atualmente é senador pelo Distrito Federal. Foi Ministro da Educação entre 2003 e 2004, no primeiro mandato de Lula. Nas eleições de 2010, foi reeleito para o cargo de senador pelo Distrito Federal, com mandato até 2018.)


Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos,o ex-governador do DF, ex-ministro da educação e atual senador CRISTÓVAM BUARQUE, foi questionado
sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia.

O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro.

Esta foi a resposta do Sr.Cristóvam Buarque:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

"Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

"Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia
para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou
diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço."

"Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser
internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.
Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

"Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.
Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário
ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês,decidiu enterrar com ele, um quadro de
um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

"Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York,
como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

"Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas
mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

"Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

"Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.
Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia
seja nossa. Só nossa!



DIZEM QUE ESTA MATÉRIA NÃO FOI PUBLICADA, POR RAZÕES ÓBVIAS. POR ISSO CONFESSO QUE NÃO TENHO SEGURANÇA DE SUA LEGITIMIDADE, MAS ACHEI BACANA POSTAR AQUI PORQUE OS ARGUMENTOS SÃO FORTES E CONTUDENTES.

 






Continue Lendo ››

4 de jul. de 2011

RESUMO: Karl Marx


Neste resumo você encontrara as princípais ideias atinentes a teoria do valor-trabalho, 
na perspectiva de Marx, assim como as similitudes e as divergências com Smith e Ricardo. 
Confiram!
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEidPxd3L0adfZRZ7EMY8CjyM94H-0GHFE-8_HNYGHmkbnfzLXHCRCnY4sOZ7li3q8EsdTLqSr-mKUnNN2DpwmemhzZQI1-TNMcykNPbIN2_DwHyv_Z2rRYeJwDorrV8ZUAp2IHUL4hAam5g/s700/marx.jpg


O alemão Karl Heinrich Marx (1818 - 1883) foi um filosofo e intelectual, fundador da doutrina comunista moderna, e também atuou como economista, historiador, teórico político e jornalista.

Influenciado pelo, também, filosofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 - 1831), Marx desenvolve suas primeiras noções acerca do materialismo. Ele aproveitou a ideia da dialética (proporcionada por Hegel) e aplicou-a aos seus estudos atinentes a estrutura capitalista, afirmando que as origens da mudança social são todas materialistas.  O que Marx fez foi inverter a dialética idealista (defendida por Hegel) para a realista, ou melhor, Marx não admitia a dialética hegeliana idealizada, que aborda o movimento do espírito, mas sim a dialética materialista que partia dos fatos reais, que vai do concreto ao abstrato. Em linhas gerais, para Marx seria a mudança do mundo concreto que acarretaria as mudanças no mundo real, e não ao contrário – como defendia Hegel.

E foi partindo desses postulados que K. Marx desenvolveu os estudos acerca da maneira de produzir de cada sociedade (mais especificamente da sociedade capitalista). Segundo o alemão os modos de produção de uma determinada etapa de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção (seja esses modos primitivos, escravistas, feudais, capitalistas, etc.) definiam a base econômica da sociedade e também toda sua estrutura. 

Portanto Marx não era positivista, pois ele considerava que o capitalismo seria substituído por outra etapa de produção, enquanto Smith e Ricardo consideravam o capitalismo como a etapa de desenvolvimento de mais alto grau. Esse estudo de Marx também se destaca por avançar na teoria do valor-trabalho (considera que o valor de um bem se forma do lado da oferta, através dos custos do trabalho incorporados ao bem.), e nas explicações das contradições econômicas.

       Os fundamentos e aspectos teóricos de Smith, Ricardo e Marx consolidaram o trabalho com fonte de valor, sendo que este último, além de elaborar a teoria do valor, pôs em evidência o aspecto ontológico-transformador do trabalho.

A teoria econômica apresentada por Smith é essencialmente uma teoria de crescimento econômico que identifica a riqueza pelo trabalho “produtivo”. Porém, Smith se perde na tentativa de formular sua teoria do valor-trabalho ao se defrontar com o lucro (excedente). Pois ele não consegue explicar a existência deste excedente e, conseqüentemente, não consegue entender o que é capital e, sobretudo, a propriedade privada.

David Ricardo, desenvolve com mais cuidado a teoria do valor-trabalho. Para ele, a medida de valor é igual ao tempo de trabalho contido na mercadoria (trabalho incorporado), porém, o trabalho incorporado não é igual ao trabalho comandado, pois se o fosse, a remuneração do trabalhador deveria ser sempre proporcional ao que ele produz e não o é. Ricardo desconsidera o trabalho comandado e por isso não entra na questão da mais-valia: a existência do lucro não interfere na sua teoria do valor. Este autor traz um avanço à teoria do valor e, ao mesmo tempo, uma regressão à teoria do excedente.

Marx ao tratar da teoria do valor observa, assim como Smith, que a troca de produtos do trabalho consiste na troca do próprio trabalho. Pode-se dizer que a troca de trabalho é um reflexo da divisão social do mesmo, já que cada homem necessita do esforço alheio para satisfazer suas necessidades, pois ninguém produz tudo que necessita. Para explicar sua teoria, Marx, parte da mercadoria e caminha para determinação do valor, afirmando que o momento da troca é o momento da igualdade, sendo que esta não se realiza sem igualdade.Assim, ele toma o trabalho como conteúdo do valor, mas para isso, esclarece os conceitos de valor de uso e valor de troca, reconhecendo o duplo caráter do trabalho: seu aspecto concreto e abstrato. Ele desfaz uma problemática estritamente ricardiana: a confusão entre valor do trabalho e valor da força de trabalho, explicitando, então, a mais-valia.

Nesta analise, Marx estava interessado em explicar a natureza da relação social entre capitalistas e trabalhadores, em meias palavras, entre salários e lucros. E foi partindo do estudo da mercadoria que o filosofo chegou a outros elementos que compunham sua analise. Para Marx a mercadoria é a célula econômica da sociedade capitalista – apesar da mercadoria ser um fenômeno anterior ao capitalismo, é nele que a mesma toma proporções gerais. Isto porque, na etapa de desenvolvimento capitalista tudo o que é riqueza (tudo o que é produto humano) assume o papel de mercadoria. Marx aponta que a mercadoria possui duas características essenciais: primeiramente, era “uma coisa que, por suas propriedades, satisfazia as necessidades humanas”, isto é, tem um caráter útil, um valor de uso. Apesar de não ter qualquer ligação definida com “a quantidade de trabalho necessário para a apropriação de suas qualidades úteis”. Em contrapartida, a segunda característica diz respeito ao valor de troca. Este valor de troca de uma mercadoria seria a relação entre a quantidade dessa mercadoria que se poderia conseguir em troca de uma certa quantidade de outra ou outras mercadorias. Em meias palavras, valor de troca é a forma que o valor (abstrato) assume na troca (no mercado), tornando-se assim uma substância concreta. Por outro lado o valor é a substância que confere o caráter econômico aos produtos e o mesmo, segundo Marx “só existe historicamente quando o trabalho produtivo não é imediatamente social. Este é, nessa sociedade, mesmo que o que foi produzido seja consumido, e portanto exista uma interdependência mútua, não existe consciência de uma relação social entre as partes.”

Para Marx o trabalho é ao mesmo tempo concreto e abstrato. Assim sendo, na análise de Marx, o trabalho concreto é o útil, cuja função é criar valores de uso; enquanto trabalho abstrato é aquele que produz valor e mais-valia para aquele que compra a mercadoria trabalho. 

Marx, diferentemente de Ricardo e Smith, faz uma distinção entre o trabalho e a força de trabalho. Segundo ele, o trabalho é um processo, uma atividade dinâmica, e por isso não pode ser vendido, pois “no momento em que começa realmente o seu trabalho — disse Marx — este deixa logo de lhe pertencer e o operário não poderá portanto vendê-lo.” Poderia, quando muito, vender o seu trabalho futuro, isto é, comprometer-se a executar um dado trabalho num tempo determinado. Mas então o operário não vende trabalho (que ainda teria de ter lugar); põe sim à disposição do capitalista a sua força de trabalho, a troco de um salário determinado, por um determinado tempo ou para determinada tarefa: ele aluga ou vende a sua força de trabalho. Mas essa força de trabalho (que nada mais é do que uma mercadoria) faz um com a sua própria pessoa e é inseparável dela. Sendo assim, o trabalhador não pertence mais a ele mesmo, mais ao capital, porque ele vendeu a sua força de trabalho, ele passa a ser o capital variável.

Marx ainda explica a mercadoria e a contradição entre Valor e Valor de Uso. Conformes seus argumentos esta contradição está inerente na forma da unidade mercadoria. Isto porque para se definir enquanto tal, a mercadoria deve satisfazer necessidades - ser um valor de uso - e,  ao mesmo tempo, ser capaz de trocar-se por outras - ser um valor. Essas duas categorias formam uma contradição já que uma mesma mercadoria ora se apresenta como valor, ora como valor de uso, nunca como os dois ao mesmo tempo. Quando um produtor leva a sua mercadoria para a troca, ela se encontra nessa situação enquanto um valor e um não-valor de uso, para o seu produtor. Nesse momento, este último está negando (alienando) o valor de uso de sua mercadoria, com o objetivo de apropriar-se de um outro, distinto daquele que produziu. Se essa mercadoria fosse reconhecida por ele como um valor de uso, ele não a trocaria, visto que estaria interessado em suas propriedades materiais úteis, e não na sua capacidade de ser trocada. Nessa situação, a mercadoria seria um valor de uso e um não-valor, ao mesmo tempo.

Outro ponto abordado por Marx diz respeito à distinção entre circulação simples e a circulação capitalista de mercadoria. Segundo ele a primeira destas configurações de circulação caracteriza-se pelo domínio da relação-valor, ou seja, do dinheiro. Enquanto que na segunda a relação-capital agrega-se à relação-valor e o meio circulante compõe-se, crescentemente, do dinheiro de crédito ao invés do dinheiro. Estas duas situações são denominadas, respectivamente, com as expressões ‘sistema monetário’ e ‘sistema de crédito’. Portanto, a esfera da circulação internacional, sob a hipótese da circulação simples, constituiria o ‘sistema monetário internacional’, e sob circulação capitalista o ‘sistema de crédito internacional’.

A acumulação do capital por sua vez designa, na perspectiva de Marx, a relativa redução da força de trabalho em relação ao emprego de máquinas e equipamentos. Deste modo, a cumulação de capital torna-se a força motriz do sistema capitalista. Que tem como característica fundamental e distintiva a mais-valia (que é aquele valor que o trabalhador cria além do valor de sua força de trabalho. Se considerarmos 8 horas a jornada de trabalho, 4 horas ele trabalhou para si e 4 horas para o capitalista). Esta ultima por sua vez, possui formas particulares, são elas: mais-valia absoluta (quando o capitalista estende a duração da jornada de trabalho, do empregado, mantendo o salário constante), mais-valia relativa (quando o capitalista amplia a produtividade física do trabalho pela via da mecanização), e também mais-valia extraordinária (que é quando um progresso tecnológico inovador é obtido por parte de capitalistas isolados o que permite que ele sozinho reduza o tempo de trabalho socialmente necessário para produção daquele produto que ele está produzindo – sendo ele desta forma premiado pelo mercado. Dentro destes trâmites podemos ainda enxergar dois processos derivados da acumulação de capital, que seriam: a concentração do capital, que se associa perfeitamente ao crescimento econômico; e na sequência, o processo de centralização do capital, que diz respeito ao fato das pequenas e médias empresas serem compradas pelas maiores, ou ainda vários pequenos capitais unirem-se em um só, tornando-se maior. Acarretando, deste modo, uma  aceleração da acumulação do capital: os capitais de maior dimensão estão em melhores condições financeiras do que os de menor dimensão para produzir nova maquinaria e aperfeiçoamento técnico. Assim, a produtividade do trabalho cresce muito mais rapidamente nas grandes empresas capitalistas, aumentando portanto a quantidade de mais-valia e de capital que pode ser acumulado.

A composição técnica do capital é a relação entre capital constante e capital variável em termos de valor-de-uso (capacidade de um bem responder a necessidades específicas. O valor de uso é a serventia de um bem.). É uma massa de meios de produção relacionada com a quantidade de força de trabalho necessária para colocar os meios de produção em ação. A composição técnica se altera devido ao progresso da tecnologia, cujo objetivo é a obtenção de lucros extras no mercado. E o que verificamos é a tendência de constante elevação da composição orgânica do capital, devido ao aumento da produtividade do trabalho. Cada vez mais é necessária uma quantidade menor de trabalhadores para operar uma quantidade maior de máquinas e equipamentos.

Desta forma há uma tendência decrescente da taxa de lucro. E neste ponto Marx discordava de Ricardo e Malthus, pois para eles os salários sobem ou descem conforme a população aumenta ou diminui. E a população aumenta quando os salários estão acima do nível de subsistência e diminui quando estão abaixo deste nível. Marx rejeita essa ideia. Para ele o nível salarial oscila ao redor do nível de subsistência, mas esta oscilação é causada pelo excedente populacional relativo, ou seja, por um excesso de trabalhadores que não consegue emprego, chamado de exército industrial de reserva. Ao contrário de Stuart Mill, a visão de Marx da economia apresentava-se extremamente pessimista, retraindo a taxa de juros e aumentando o n° de trabalhadores desempregados. “A taxa de lucro cai, não por explorar-se menos o trabalho, e sim por empregar-se menos trabalho em relação ao capital aplicado”.

Para Marx, o sistema produtivo não é capaz de absorver toda a população que chega ao mercado. Apenas uma parcela da população trabalhadora é aproveitada no emprego industrial. Há outra parcela que sequer consegue arranjar um emprego e vai engrossar o exército de desempregados. Pertence também a este exército aquelas pessoas empregadas que perderam o emprego. Essa reserva de trabalhadores fica à disposição dos capitalistas e impede que os salários subam muito.
Continue Lendo ››

FICHAMENTO: "Manufaturas e indústrias no período de D. João VI no Brasil"


Olá pessoinhas!
Vou repetir aqui a informação do post anterior, somente para reforçar, mas trata-se de outro fichamento:

"Esse post, não é  dos mais especiais e trabalhosos. É um simples fichamento de citação, que foi pedido na disciplina de História Econômica do Brasil. Mas, como o combinado é postar aqui "TUDO" o que for possível no decorrer da minha vida acadêmica. Então, confiram:"


http://www.livroseeditoras.com.br/media/catalog/product/cache/1/image/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/4/5/45_1.jpg 
imagem do livro


TEXTO:
CANABRAVA, Alice. Piffer. (2005). Manufaturas e indústrias no período de D. João VI no Brasil. História Econômica: Estudos e Pesquisas, São Paulo, Ed. UNESP, 2005. P. 85–101.



Manufaturas e indústrias no período de D. João VI no Brasil

“Ao escolhermos como tema da nossa palestra um aspecto da política de D. João VI durante sua estada no Brasil, fomos levados, não apenas pelo interesse de tratar uma época tão mal conhecida pelos historiadores em muitos de seus problemas fundamentais, mas também tendo em vista a extraordinária atualidade dos chamados problemas de desenvolvimento que, em última análise, constituem o objetivo das mudanças que se intentaram ou se empreenderam nos anos de 1808 a 1821, sob a influência direta do soberano.” (p.85)

“Nosso objetivo é focar alguns pontos essenciais de um problema de grande atualidade, na tentativa de reavaliar suas proporções exatas, sua natureza e a extensão de suas conseqüências na atividade econômica nacional.” (p.85-86)

“De fato, vistos em conjunto, não se conhecera, em todo período colonial, estímulo tão grande com referência à produção de bens de consumo bens de produção, relegados que fomos, até 1808, à condição de simples fornecedores de produtos extrativos e da agricultura. O famoso alvará de D. Maria I, de 1785, que suprimiu as manufaturas, vale também como registro documental dessa pobreza de atividade produtora, pois contém referência expressa unicamente aos têxteis que floresciam então nas capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro.” (p.86)

“A grande importância do alvará de D. João VI de 1.° de abril de 1808 repousa, antes de mais nada, em seu caráter amplo de estabelecer, segundo as palavras textuais,  todo gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os trabalhos em pequeno ou em grande como entenderem” (p.86)

“No programa de desenvolvimento delineado pelo soberano em 1810, parecia-lhe de suma utilidade criar no Brazil estabelecimentos de minas de ferro na maior extensão possível, que possam dar ferro e servir de base a todas as preciosas manufaturas do mesmo metal, não só para consumo do Brasil, mas ainda para servir de objeto de exportação o que será para o comércio destes estados de suma utilidade.” (p.86-87)

“(...) se cogitava criar no Brasil um fluxo permanente de bens e produção e recomendava-se expressamente ao governador da capitania de São Paulo: procureis firmar o estabelecimento em tais bases, que para o futuro, dele resulte, não só a sua perfeita utilidade, mas ainda a felicidade da Capitania ou de toda a variada indústria da fundição e forja de ferro e das imensas fábricas que dele e do aço depois se derivam...” (p.87)

“Sabemos que o início da industrialização pertence à história da indústria têxtil, mas seu triunfo final somente se tornou possível com o desenvolvimento da indústria do metal. Esta, sem dúvida, é a indústria-chave, porque com ela se produz a maior parte dos equipamentos requeridos pelas outras indústrias, e por indústria do metal queremos nos referir à indústria do ferro e do aço.” (p.87)

“(...) a enumeração teria de incluir obrigatoriamente, além das tão conhecidas fabricas de pólvora e de tecidos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, outras geralmente pouco mencionadas, como aquelas destinadas a produção de chapéus e de cartas de jogar, no Rio de Janeiro, de vidro em Salvador, de papel no Serro Frio, em Minas Gerais de Construção naval em Alagoas, de cacau, de sal, de canos de espingarda, de lapidação de diamantes, de exploração de pesca, além de olarias, do ouro, dos diamantes, do pau-brasil.” (p.87-88)

“Acreditamos não existir estabelecimento algum destinado à produção de bens de consumo ou de bens de produção, fundado sob a legislação de D. João VI, que se não tenha beneficiado, de uma forma ou de outra, do amparo estatal.” (p.88)

“A forma mais extensiva de proteção, a que atingiu, de modo geral, todas as atividades de produção foi a isenção fiscal: isenção de direitos alfandegários para matérias-primas ou para equipamentos importados, isenção dos tributos que oneravam a exportação das mercadorias produzidas, seja para outras partes do território brasileiro, seja para o exterior.” (p.88)

“Se a isenção fiscal tem a primazia pela generalidade de sua aplicação, o capital financeiro em espécie e em moeda, se tivermos em vista o montante do capital comprometido, constitui a mais importante forma de subsidio às novas atividades.” (p.88)

“O alvará oficial que concedeu várias formar de ajuda às novas atividades de produção, mandava retirar da Loteria do Estado a importância de 60.000 cruzados a favor daquela manufatura que mais necessita de ser socorrida, particularmente as manufaturas de lã, de algodão, de seda e fabricas de ferro e aço.” (p.89)

“Outra forma de proteção foi tornar compulsório o abastecimento pelas fábricas nacionais e do Reino, dos fardamentos necessários ao exército, como também destinar expressamente à Marinha real a produção de cânhamo obtido na feitoria do Rio Grande do Sul.” (p.90)

“A proteção e a ingerência oficiais, que procuravam alcançar, de algum modo, setores vitais da empresa, não prescindiam também, em muitos casos, de providenciar e regulamentar sobre a formação técnica.” (p.90-91)

“No Arsenal real do Exército foi criada, em 1810, uma companhia de artífices  que compreendia ferreiros, serralheiros, carpinteiros, torneiros, fundidores e tanoeiros, instituindo-se, no plano de organização, que teriam a graduação de sargento os artífices que, em razão dos seus serviços, habilidade e boa conduta, chegasse a mestre.” (p.91)

“De modo geral podemos dizer, portanto, que os estabelecimentos de produção criados no período de D. João VI foram, de uma forma ou de outra, protegidos pelo estado, patrocinados por ele, senão inteiramente criados e mantidos pelo estado.” (p.91)

“Ao longo da copiosa legislação de D. João VI, no período de sua estada no Brasil, à terminologia utilizada como referência ás atividades de produção não é uniforme. As palavras manufaturas, fábricas, artes ocorrem de ordinário como sinônimas. O emprego da conjunção e fábricas e manufaturas -, encontrado com freqüência, poderia nos levar a pensar que a intenção fora mencionar ambas as atividades. Contudo, a impressão dominante da análise dos textos legais é a de que seus autores não possuíam conhecimento exato e claro da natureza essencialmente diferente de ambas aquelas atividades. O famoso alvará de 1.° de abril de 1808 refere-se a todo o gênero de manufatura[...]fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande[...], mas o ato de criação do Tribunal da real Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e navegação refere-se à liberdade concedida por aquele alvará, em termos de que, fosse livre o erigirem-se fábricas de qualquer gênero e qualidade.Nos textos legais ocorrem repetidamente expressões como fábricas em grande, grande e útil fábrica, trabalhos em grande, fábricas de pólvora em pequeno, arte de minerar, trabalhos em pequeno ou em grande.” (p.91-92)

“A política de D. João VI pretendeu reavivá-la, reerguê-la ao elevado nível técnico, como manufatura, dos anos imediatamente anteriores ao alvará de D. Maria I. Deste modo, ao sabor da iniciativa particular e dentro dos quadros estritamente domésticos e artesanais, tinham-se expandido essas atividades empenhadas na produção de sentidos, segundo expressa referência do príncipe regente. Com toda certeza empregavam-se nelas os recursos da técnica tradicional. Seria com a roca e o fuso que trabalhavam os escravos que Luccock via fiando, todas as manhas, junto à porta de suas moradas no Rio de janeiro. Outros estabelecimentos de produção de tecidos, uns poucos, entre os quais o de Rodrigo de Freitas, pertenceriam aos quadros da manufatura, como o comprova a típica divisão do trabalho, a mão-de-obra assalariada que trabalha com o equipamento do empresário, em oficinas sob sua direção, condições estas propiciadas pelo maior desenvolvimento quantitativo.” (p.93)

“A energia a vapor foi utilizada pela primeira vez no Brasil, no período de D. João VI, segundo parece. Pelo menos encontramos a concessão do privilégio de explorar a navegação a vapor nas costas e rios da capitania da Bahia e do porto do Rio de Janeiro em 1817e 1818.” (p.94)

“(...) ainda que o aumento geral dos preços tenha tido a ação análoga à de uma tarifa protecionista, os artigos importados, ainda assim, se vendiam a um preço em geral inferior àquele dos similares, produzido no País, e, de acordo com o testemunho unânime de todos os coevos, muitíssimo inferior ao que se pagava antes de 1808.” (p.96)

“A importância do comércio, particularmente do comércio brasileiro como sustentáculo da economia portuguesa, se mantém, portanto, preservando a tradição mercantilista.” (p.97)

“A manutenção do estatuto da escravidão, as ínfimas dimensões do mercado consumidor, a precariedade dos meus de transporte, deixados quase intactos no período de D. João VI, o colapso da instituição bancária oficialmente criada, a decadência das principais correntes de exportação nacional, são fatos que atestam a preservação de uma estrutura colonial. Esta não se afetara, apesar das medidas parciais em favor do desenvolvimento das manufaturas.” (p.98)
Continue Lendo ››

Confira Também

Postagens populares

GIRLSPT.COM - Cursores Animados

Template by:

Free Blog Templates